
No Brasil colonial, França e Portugal disputaram um dos mais importantes e aguerridos clássicos da América Latina, quando os franceses insistiam em invadir a área portuguesa com seus mosqueteiros e eram rechaçados com pelotaços dos canhões da fortaleza da Ilha do Mel. Na época das bordunas, os lusitanos contavam no ataque com um quadrado mágico de respeito: tupi, guarani, tamoio e carijó.
Na tarde de hoje as duas equipes novamente entrarão em campo, com diferenças que assinalam muito bem esses novos tempos globalizados. A França com uma esquadra de afro-negões capitaneada por Zidane, de origem argelina; Portugal será empurrado à luta pelo técnico Feliponi Scolari, de raízes italianas, escoltado ao longe pelo fanático exército de gaúchos.
Do final do século 19 em diante, o maior ?derby? do Sul Maravilha passou a ser Alemanha e Itália, com uma legião de torcedores espalhados pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Formam no Brasil meridional o clássico chucrute com polenta, vizinhos cordiais que nunca se bicaram. E não podia ser diferente, o estilo de jogo entre as duas bravas equipes sempre foi muito grande.
A rivalidade entre tedescos e italianos vai bem além da fermentação do chope e do vinho, passa necessariamente pela religião. Católicos apostólicos romanos, os italianos de Curitiba até hoje amargam uma grande derrota no campo da engenharia, onde não eram tão afeitos, quando foram batidos de goleada pelos protestantes, dentro do próprio ?estádio?. Uma heresia, eram discípulos de Lutero os construtores da catedral de Curitiba: o técnico chamava-se Henrique Henning; o fornecedor de madeiras tinha o nome de João Klass e o de ferro Augusto Gerhard; o relógio da torre foi vendido por Frederico Kopp, que o mandou vir de Berlim, da firma F.C. Rochlitz; os pára-raios vieram de Hamburgo.
A igreja foi inaugurada em 7 de setembro de 1893, com o povo acomodado no chão, enquanto os mais grados tomavam assento em cadeiras emprestadas da vizinhança. Dos três sinos que chamaram o povo, o maior foi fabricado pela firma Mueller & Filhos – de consolação, os outros dois sininhos eram oriundos da Itália e o banquete de inauguração foi realizado em Santa Felicidade, com vinho e tutti quanti.
Aos olhos de Roma, a vitória germânica em Curitiba foi uma humilhação, e veio a revanche: daí em diante, só foram escalados bispos italianos para bimbalhar os sinos da Matriz. Tedescos, só mesmo para acertar os ponteiros do relógio, e com ressalvas.
Da guerra das almas aos embates do espírito, foi na boa mesa que alemães e italianos do Brasil meridional travavam outros grandes duelos. De um lado, cerveja, chucrute, marreco assado, repolho roxo e apfelstrudel. Do outro, vinho, polenta, lingüiça e radice.
No campeonato de 1908, constava na súmula haver no Paraná mais de trinta fábricas de cerveja. O consumo era calculado em dois milhões de litros mensais, em tantos bares que chegou a causar um notável desaparecimento dos velhos cafés de Curitiba. Um a zero para os alemães, porque o vinho que os italianos faziam era quase um vinagre.
No segundo tempo, a ?azzurra? virou o jogo: na Serra Gaúcha a italianada encheu suas pipas com dinheiro e, em Santa Felicidade, a família Madalosso abriu o maior restaurante do mundo, provando que o amarelo da polenta é ouro.
Alemanha, 2006 – os italianos caminham para Berlim. Uma história que teve os lances da saga imigratória no Brasil meridional: choro e ranger de dentes, o campo disputado palmo a palmo, a felicidade conquistada com o suor do próprio rosto.