Cruzeiro do Oeste vai comemorar, entre os dias 19 e 28, o aniversário de 53 anos da cidade. O prefeito Zeca Dirceu, filho de Zé Dirceu, é o festeiro. No programa, duas peças teatrais prometem muita animação: em 21 de agosto estará em cartaz ?Quem roubou o meu futuro?? e, no dia seguinte, ?Entre gatos e ratos?.

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Dois espetáculos teatrais com nomes sugestivos. Com certeza contratados quando o Brasil ainda nem pensava em assistir ao atual espetáculo de horror e o ex-ministro Zé Dirceu nele nem sonhava ser escalado para fazer o papel de vilão. Se tempo ainda restasse, e com a devida licença do prefeito Zeca Dirceu, juntaria as duas peças num só título: ?Entre gatos e ratos, quem roubou o meu futuro??.

Abriria o roteiro com uma versão atualizada de ?No reino da bicharada?, de Viriato Correia (1884 – 1967), escritor brasileiro pouco lembrado e com uma extensa obra à sombra de Monteiro Lobato. Encenaria uma história onde era uma vez um sapo que queria ser rei. O reino da bicharada era muito grande, bonito e formoso, onde os bichos mais fortes e ladinos viviam no bosque e o resto chafurdava no brejo, origem do sapo petulante. Era um sapo barbudo, que se fazia muito distinto entre os milhares de companheiros batráquios que infestavam aquele reino dividido entre os privilegiados dos bosques e os companheiros das terras úmidas e movediças.

No primeiro ato, inconformado com o descalabro ambiental, o sapo barbudo lidera uma marcha em direção ao bosque. Bate na porta do elefante exigindo sombra e água fresca para todos, da perereca ao hipopótamo. Os privilegiados moradores do bosque, alvoroçados com a rebelião, convocam o leão para acalmar o bode. O jacaré, companheiro do sapo, desfere uma rabada na onça, derrubando a girafa.

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Muito sábia, a coruja convoca eleição. Ela percebe que o sapo tinha muito peito. Para o bosque continuar do jeito de sempre, alguma coisa precisa mudar! – dizia a coruja ao rinoceronte. E mudou. O sapo se candidata a rei e assim termina o primeiro ato: o barbudo feito rei com apoio de gatos e ratos. E até dos gaviões. As hienas morriam de rir.

O segundo ato abre com a posse, os preparativos para a ?festa no céu? – com o texto adaptado da fábula de Luís da Câmara Cascudo – e uma questão de locomoção: como sapo vai chegar ao céu, naquelas alturas? Os bichos só faltaram morrer de rir. Os pássaros, então, nem se fala! Mas o sapo tinha seu plano e ele não era o burro: com o apoio de gatos e ratos, meteu-se dentro da viola do urubu, que amarrou-a a tiracolo e bateu asas para o céu, rru-rru-rru…

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A festa no céu foi de arromba. Gatos e ratos se esbaldaram, como vimos. Fim de festa, o urubu agarrou a viola e tocou-se de volta para a terra, rru-rru-rru… Íá pelo meio do caminho, quando o sapo mexeu-se, o urubu, espiando para dentro da viola, viu o bicho lá no escuro, todo curvado, feito uma bola. E, naquelas lonjuras, emborcou a viola. O sapo despencou-se para baixo que vinha zunindo. E dizia, na queda:

– Béu-Béu! Se desta eu escapar, nunca mais posse no céu!…

E vendo as serras lá embaixo:

– Arreda pedra, se não eu te rebento!

Bateu em cima das pedras como um genipapo, espapaçando-se todo. Ficou em pedaços. Nossa Senhora, com pena do sapo, juntou todos os pedaços e o sapo enviveceu de novo. Por isso o sapo teve um futuro tão triste, com o couro todo cheio de remendos.

A peça termina com o sapo pedindo perdão e amaldiçoando gatos e ratos, aqueles canalhas que enfiaram o coitado na viola do urubu. E os tucanos cantando a cantiga de João de Barro:

A festança vai ser boa / Vai ter canjica e quentão / Mas só vai bicho que voa, ô / Bam, banlão, bambão, bambão / Sai daí sapo danado / sapo velho, jururu / Sapo não vai para o céu / Na viola de urubu.