Eis aí o feriadão, começa hoje a descida da serra. Aviso aos navegantes: este marinheiro que vos escreve vai inspecionar a Baía de Paranaguá a bordo de um modesto veleiro de 30 pés. Portanto, se a Capitania dos Portos recolher alguma embarcação encalhada num banco de areia ao largo da Ilha da Mel, saibam todos que tinha um cartunista no leme.
A geografia do Paraná sofre de um incurável complexo de inferioridade perante o litoral que o Criador esbanjou nos vizinhos do norte e do sul. Quando nos referimos ao eixo Guaratuba, Caiobá e Matinhos, é indisfarçável o olhar de inveja lançado em direção a Florianópolis.
Sofrem do mal da inveja apenas os que não têm olhos para ver os contornos da nossa Baía de Paranaguá. Ou então, na sua grande maioria, aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de esquadrinhar a baía, partindo de Antonina ou Paranaguá, de Guaraqueçaba à Ilha do Mel, passando pela Ilha das Peças.
A Baía de Paranaguá é um paraíso para os esportes náuticos em águas abrigadas. Um paraíso perdido, e poucos saberão o que estamos perdendo se os nossos timoneiros não tomarem o rumo da marina de padrão internacional que será inaugurada neste sábado, em Balneário Camboriú. Empreendimento de R$ 15 milhões que vai entrar na rota dos marinheiros endinheirados do Mercosul, a Tedesco Marina Garden Plaza nasce como a maior instalação náutica do sul do País. Com infra-estrutura baseada nas maiores marinas do mundo, e capacidade para abrigar 450 embarcações de até 75 pés, contará com restaurante de padrão internacional, quadras de tênis, piscina, geradores e serviços de água, luz, telefone, internet wireless (sem cabo) e TV a cabo para os barcos.
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Enquanto isso, as autoridades do setor insistem em navegar contra a maré. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, acaba de vetar uma lei que propunha a ampliação, de três meses para dois anos, da permanência provisória de embarcações de turistas náuticos estrangeiros no litoral brasileiro.
A lei, que conta com o apoio do setor náutico, criaria centenas de empregos nas principais rotas do litoral do País. As justificativas para o veto são de águas rasas. Equiparam o barco trazido por um navegador em trânsito provisório no País a uma importação. Assim, o governo alega que o brasileiro que importa um barco seria discriminado, porque tem que pagar impostos. Uma comparação absurda, o veto presidencial julga que a permanência do barco no Brasil é desnecessária, se o proprietário voltou ao país de origem.
Os burocratas não entendem que a essência do projeto é exatamente esta: como o Brasil possui oito mil quilômetros de litoral, o navegador poderá continuar sua viagem depois, sem ter que enfrentar uma nova travessia oceânica. O projeto garante o retorno do navegador turista, a cada ano ou período, para visitar novas regiões.
A decisão do governo brasileiro mantém a legislação atual. O navegante tem que deixar o País com a embarcação, mesmo que pretenda continuar conhecendo o litoral. A legislação em vigor, atrasada e única no mundo, tem feito o Brasil perder turistas náuticos europeus e norte-americanos. Se a nova lei fosse sancionada pelo presidente da República, há uma estimativa de que cinco mil velejadores poderiam vir navegar no Brasil. Esses navegantes seriam turistas que iriam gerar divisas conhecendo o País e consumindo serviços, mas que continuariam gastando ao deixar o Brasil, porque a embarcação teria que ficar parada ou em manutenção, sob a guarda de uma marina.
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Lembrando pescadores de águas turvas, nenhum dos candidatos ao governo do Paraná consegue olhar para a nossa baía além do Porto de Paranaguá. Pudera, se não conseguem enxergar os esgotos da Ilha do Mel, um parque náutico na Ilha da Cotinga seria uma miragem.