Leonel de Moura Brizola era um brasileiro cordial e, sobretudo, generoso. E assim o desenhei na charge da página 4 deste jornal, quando de seu retorno ao Brasil: um político generoso, disposto a dividir a cuia pela redemocratização do país.
O Paraná sempre recebeu bem o engenheiro, desde o momento em que retornou do exílio e encontrou amigos, correligionários e uma porteira escancarada em Foz do Iguaçu, no dia 6 de setembro de 1979. Emocionado, quase chegando às lágrimas, Brizola desembarcou em solo brasileiro às 17h20. Senadores, deputados, vereadores, oposicionistas de várias bandeiras misturavam-se aos populares na disputa pelo primeiro abraço do exilado, quando o bimotor procedente de Assunção aterrou no aeroporto de Foz do Iguaçu. Quando o ex-governador gaúcho se livrou da alfândega, de fotógrafos, cinegrafistas e jornalistas, cerca de duzentas pessoas o carregaram nos ombros, aos gritos de “Viva Brizola!” e “O povo unido jamais será vencido!”. Do aeroporto, seguiu para o Hotel das Cataratas, onde pernoitou com a família. Do lado de fora do hotel, agentes do SNI faziam plantão ao lado de Theodoro dos Santos, agricultor gaúcho que percorreu 70 quilômetros especialmente para presenciar o tão esperado retorno. “A única esperança do Brasil é o Brizola, e se precisar carregar ele nas costas, eu vou carregar”, dizia Theodoro, que ainda guardava em seu bolso um “santinho” de 1958 com a foto do engenheiro.
Na manhã seguinte, Leonel de Moura Brizola embarcou no avião bimotor prefixo PT-ESO, de propriedade do sobrinho João Vicente, filho de João Goulart, e partiu para São Borja, Rio Grande do Sul, cidade onde amanhã será enterrado.
O Paraná e Curitiba sempre foram generosos com aquele homem generoso. Depois de São Borja, Brizola passou por Curitiba. E foi jantar no Bar Palácio.
Passava da meia-noite quando Doutor Leonel chegou ao restaurante, com uma diminuta comitiva; meninos, eu vi, eu estava lá, bebendo cerveja e trinchando um churrasco. Com nenhuma mesa vaga, o engenheiro foi recebido com o intenso burburinho, o perfume, a fumaça e a discrição curitibana de sempre: sem qualquer manifestação aparente de apreço. O calor vinha apenas da churrasqueira. O engenheiro não cumprimentou e não foi cumprimentado, dirigindo-se imediatamente ao balcão, onde pediu um aperitivo, enquanto aguardava. Cotovelo apoiado na ponta do balcão, observando a grelha ao lado, bebeu um, depois dois, ele e acompanhantes beberam várias batidas de limão. Nenhuma mesa ficou vaga, nem mesmo lhe foi ofertada; talvez aqueles discretos presentes estivessem se prolongando no repasto para melhor observar o homem que veio do exílio.
Apenas chegado da redação do jornal, eu estava sozinho numa mesa de quatro lugares. Preocupado com as tantas batidas de limão que o engenheiro já havia abatido no aguardo, e antes de arrematar a salada de cebola com farofa, chamei o garçom Mozart e fiz as honras da casa:
– Mozart, sabe quem é aquele senhor que está esperando faz tempo no balcão?
– Conheço. É o vereador Daros.
– Não, estou me referindo àquele senhor de cabelos encaracolados e sobrancelhas grossas e que não tira o olho da churrasqueira. É o Leonel Brizola. Tira meus pertences dessa mesa e me acomoda naquela de dois lugares que agora vagou.
– Não me diga… é o Brizola? Será que ele gosta de pimenta? Vou servir aquela minha, especial da casa, que esse homem gosta de coisa forte.
Brizola experimentou o tempero e o churrasco do Mozart e eu fiquei assistindo à cena de Brizola, numa mesa pequena ao longe.
Brizola se retirou quando entrou uma freguesia esquisita. Ao me retirar do Bar Palácio, bem mais tarde, aquela Veraneio preta ainda estava estacionada nas imediações.
Até sexta-feira, com outras histórias de Brizola no Paraná.