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Mellinho era promotor público em Curitiba. Faleceu de coração sensível, em todos os sentidos. Sabedor de sua ilimitada paixão pela seleção brasileira, ela não cabia num coração tão limitado, professava a filosofia esportiva de que ?tudo o que os olhos não vêem, o coração não sente?.

Torcida brasileira, faltam poucos dias para o apito cortar o profundo silêncio e ser dado início então a um dos grandes momentos de confraternização nacional. Mais que Carnaval, torcer por nossos craques é celebração ecumênica. Uma festa em família, dia de reunir os amigos escolhidos. Sobretudo, é cerimônia de renovação da auto-estima, é a pátria redimida.

O Brasil merece sala de visitas, os convidados recebidos entre abraços, porta da frente escancarada, como se fosse festa de aniversário que acontece de quatro em quatro anos. Tudo planejado com antecedência, do local às polegadas do aparelho de tevê. Bebida e cardápio não fogem à regra: dos líquidos, cerveja ou caipirinha; dos sólidos, feijoada e churrasco. Fora isso é heresia, porque só mesmo quando o adversário for à Itália a macarronada é permitida.

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Na casa da família Mello era assim, uma celebração da vida. Só coisa boa; e ai dos retardatários. Cartão vermelho aos que não marcassem presença, mesmo num só tempo de jogo. Os agregados, por exemplo, tinham que se dividir em dois ou mais campos de jogo.

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O dono da casa era um caso à parte. Tinha seu próprio ritual, que a família sempre aguardava e respeitava. Pouco antes da bola rolar, Mellinho incorporava o avestruz. Se recolhia à particular caverna, longe do insensato mundo do futebol, se exilava na garagem.
Na vida, Mellinho era um leão. Na Copa do Mundo, virava avestruz. Preparava pessoalmente o farnel de cervejas e salgadinhos, botava o jornal do dia embaixo do braço, baixava o portão de ferro da garagem, se certificava de nenhum vazamento e, ali na média luz de dentro do Fusca 68 vermelho, Mellinho ouvia o coração bater baixinho.
O promotor não ouvia nem mesmo um bem-vindo foguetório. Sintonizava a programação exclusiva de música da Rádio Ouro Verde e imaginava o Brasil dando baile sob a batuta do radialista Euclides Cardoso – ?Domingo sem futebol? era um dos maiores sucessos da época.

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O que os olhos não vêem, o coração não sente. Dentro da garagem, de fato, Mellinho fazia do futebol uma caixinha de surpresas. Em noventa minutos de taquicardia, tudo podia acontecer. Caso o coração não marcasse gol contra no último minuto, então saía o promotor de sua caverna, sentindo o placar do jogo estampado no ar: o silêncio na derrota, o foguetório na vitória.

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Pergentino de Mello Filho morreu em setembro de 1991, mas o Mellinho é ainda lembrado. Na Copa de 94, o silêncio da cidade dizia uma quase derrota: a decisão foi para os pênaltis. Naquela tarde, foram vistos bandos de avestruzes conversando nas esquinas. Centenas de Mellinhos se refugiaram em garagens.
Quando o italiano Roberto Baggio correu para o chute derradeiro, os da família Mello se voltaram para a porta da sala, como se o redivivo Mellinho estivesse retornando da garagem com a vitória refletindo na cara, pronto para dar partida no Fusca 68 vermelho e sair em carreata pelas ruas de Curitiba.