Não faça do celular uma arma

O bandoleiro Marcola, de dentro de uma penitenciária de segurança máxima, deu entrevista à imprensa pelo celular e nos próximos dias deve inaugurar uma revenda de telefones no local, além de criar um blog na internet para discutir com a comunidade do PCC os próximos passos da facção.

Marcos Camacho, o popular Marcola, confirmou que o PCC é o responsável pelos dias de terror em São Paulo: ?Se a gente fosse ouvido e atendido dentro da Constituição e dentro da lei, nada disso teria acontecido?, disse. Marcola afirmou ainda que os mais de 100 ataques foram planejados através do celular na própria sexta-feira da semana passada, primeiro dia dos atentados praticados no Estado de São Paulo. Segundo ele, ?a intenção foi a de chamar a atenção da imprensa e da população para a defesa dos direitos dos presos?.

As autoridades incompetentes estão ainda perplexas, negam que o bandoleiro tenha conseguido falar pelo celular: ?Claro que ele está incomunicável. Vamos ao Poder Judiciário pedir esclarecimento? – afirmou o governador Cláudio Lembo, pelo celular. Outra autoridade incompetente, também pelo celular, afirmou que ?não é normal? que um preso consiga usar o telefone celular de dentro do presídio de segurança máxima.

O telefone celular se transformou no inimigo público número um. Se em São Paulo o celular nas mãos do PCC provocou um banho de sangue, nas mãos de um chato, o famigerado aparelho é uma arma letal não só na cadeia: no cinema e no teatro, especialmente, o celular quase tem provocado verdadeiras carnificinas.

Nos restaurantes, muitos já vêm defendendo a criação de três áreas restritas: fumantes, não fumantes e portadores de celular, que ele pode causar câncer no ouvido.

Dentro do próprio PCC, existem dissidências: os que ainda usam celular e aqueles que já não suportam mais o hino do Corinthians tocando nas celas em horas das mais impróprias.

Mais que uma ferramenta do crime, o celular pode ser motivo de crime: quantas vezes já pensamos em deletar aquele infeliz companheiro de bar que não larga a mão do celular, senta-levanta, atende intermináveis chamadas, num desfile peripatético na calçada em frente?

O telefone móvel é ferramenta do crime não apenas dentro de presídios, conferências, concertos de música clássica, reuniões de negócio e, sobretudo, no trânsito.

Ao contrário das ações do PCC, o celular não foi feito para matar ninguém. Mas o aparelho se transformou numa arma de verdade, conforme a história de um armeiro que construiu um revólver com a aparência de um telefone celular: o celular-revólver teria surgido na Europa, quando policiais holandeses realizavam uma batida antidrogas em Amsterdam. Pouco tempo depois, um contrabandista de origem croata teria sido preso com algumas dessas armas supostamente provenientes da Iugoslávia.

 Consta nos anais da internet que em São Paulo – só podia ser – duas dessas armas já foram apreendidas, sendo uma delas com calibre 380 mm e outra com calibre 9 mm, privativo das forças armadas.

Se o celular-pistola existe, é mais um motivo para qualquer um ficar ressabiado com o ?viciado do celular?: ele pode ser um sorrateiro meliante. Ninguém vai assaltar o estabelecimento com uma mamadeira em punho, a polícia adverte. Normalmente usam armas de brinquedo ou imitações feitas de matéria plástica, e agora celulares.

Pouca gente ficaria amedrontada com o engravatado na fila do cinema portando um telefone celular ou uma mamadeira. Ao abordar o imbecil que atende seguidas chamadas do celular durante um filme, todo cuidado é pouco: a ligação telefônica pode ter conseqüências fatais.

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