Rafael Greca de Macedo está fazendo muita falta no tiroteio dessa campanha eleitoral. Exilado em sua chácara São Rafael das Laranjeiras, a Ilha de Elba de Pinhais, ganhou dos vizinhos o apelido de “cuco”: de vez em quando, e muito de vez em quando, bota a cabeça pra fora da porteira. E quando assim o faz, é para se abastecer de finos acepipes da Mercearia Riograndense, no alto das Mercês, ou então para confirmar a fama de “rei do gatilho”. Como raramente erra o alvo, em sua última sacada derrubou os candidatos a prefeito de Curitiba, com uma só bala.
– Todos os candidatos estão prometendo menos que a nossa Curitiba já tem.
Um disparo perfeito, o ex-prefeito Rafael Greca conhece o alvo. Quando postulante, também prometeu e não deixou para a cidade apenas o “cavalo babão” na Praça Garibaldi. Nos ofertou, entre outras coisas, a bela coleção de Faróis do Saber, hoje não só mais um ícone da cidade, como também nome de aperitivo: o “uísque farol do saber”, que consiste de três doses choradas de um bom escocês, copo fino e alto, e gelo ultrapassando a borda. A forma do copo, o amarelo do uísque e o brilho do gelo fazem lembrar perfeitamente um Farol do Saber. Principalmente porque, depois do segundo copo, qualquer energúmeno se torna inteligente. Assim como o próprio Greca o é, ao natural ou calibrado.
Com efeito, todos os candidatos estão prometendo menos que Curitiba já tem, e merece. Os meninos se apresentam modestos, acanhados. Até parece que estão discursando para os queridos pais, em noite de formatura, dentro de terno justo, colarinho engomado e sapato apertado. O desconforto é indisfarçável, incluindo o veterano Rubens Bueno.
Cadê o nariz de palhaço do postulante Vanhoni? – era tão simpático e rebelde, aquele menino! Cadê a impostação de gente grande do Beto Richa, de quando postulante a governador? – era tão desassombrado, o ainda menino! Vamos ficar apenas com os dois primeiros da turma, pois se for para passar em revista todos os outros vestibulandos, vai faltar página no boletim. Resumindo o ditado, assim engomadinhos os meninos não vão conseguir tirar nenhuma moça para dançar. As meninas não vão querer bailar quatro anos com pretendentes assim tão anódinos e amorfos. Nas “soirées” da vida, os rapazes mais atrevidos é que conquistam as mais belas garotas.
Ânimo, rapazes! Tentem, inventem, façam uma Curitiba ainda mais diferente. Sejam meninos maluquinhos, fujam do internato e das regras de comportamento para fazer serenata à namorada com um rock pauleira. E proponham à amada fugir na madrugada. Ela espera suspirosa uma proposta indecente, muito mais que o prometido.
Curitiba há muito deixou de ser pudica e provinciana. Ela já foi muito mimada, ganhou enxoval de causar inveja às outras cidades. Tem do bom e do melhor, e do pior, mas isso acontece nas melhores famílias. Curitiba, portanto, está mal acostumada, e não quer mais nada de menos, quer mais e mais. Mas nada além de suas posses.
Mirem-se no exemplo de Jaime Lerner e Roberto Requião. Meninos, eu vi! O primeiro, na madrugada do primeiro mandato, chutou o pau da barraca da Rua XV. O segundo, nem tinha ainda sido diplomado quando chutou a bunda dos reitores do transporte coletivo. Muito além do paraíso, mirem-se no exemplo do atual prefeito de Paris. Como se não bastasse a própria sexualidade à margem, Betrand Delanoë transgrediu também o berço esplêndido do Rio Sena e fez de três quilômetros de uma margem praia artificial. É um sucesso. Nem Julio Verne ousou profetizar a imaginação do “mairie” de Paris.
Curitiba costuma expulsar do templo os profetas do menos. Só escuta e acolhe os profetas do mais. A imaginação de Curitiba não aceita o que for de menos, queremos e merecemos tudo o que for de mais, além da imaginação.
Até quarta-feira, arquitetos Rafael Dely e Valter Ceneviva.