Na hora daquele pênalti

O gaúcho David Coimbra é sem dúvida um dos melhores cronistas esportivos do Brasil. Diria mais. Diria que David Coimbra é um brilhante escritor. Na edição de ontem do jornal Zero Hora, o jovem jornalista que está na Alemanha cobrindo a Copa do Mundo, contou uma história real que não resisto em passar adiante, tão pungente foi o drama de vida do jornalista catarinense Roberto Alves. Com licença, David Coimbra. Nossos respeitos, Roberto Alves.

Beto olhava para a bola parada na marca do pênalti e sentia raiva. Se acertasse, faria o gol do título. Seria a consagração. Mas não conseguia pensar no jogo, não conseguia pensar na taça, nem em mais nada. Pensava só naquela senhora gorda que o olhava da arquibancada: sua mãe. A mãe que ele não conheceu.

Beto tinha 16 anos. Jogava na meia-esquerda do time juvenil do Avaí. Décadas mais tarde, toda Santa Catarina passaria a conhecê-lo como Roberto Alves, nosso colega do Diário Catarinense que está aqui conosco, na Copa da Alemanha. Foi numa manhã amena de sábado, em Königstein, quando tínhamos algumas horas de folga da cobertura da seleção, que Roberto nos contou sua história, e nos emudeceu.

A mãe de Roberto Alves separou-se do marido e dos filhos quando ele ainda não tinha dois anos de idade. Nunca mais a viu, até dias antes de estar diante da bola e do goleiro, prestes a cobrar aquele pênalti. O jogo era o maior clássico da cidade, Figueirense x Avaí. O pai de Roberto era um ardoroso torcedor do Avaí. Tanto que seu nome era Avaí ao contrário -Iavá. Na semana que antecedeu o clássico, Roberto notou a presença daquela senhora na arquibancada, gritando o seu nome:

– Vai, Beto! Vai, Beto!

Na véspera do jogo, um colega de time revelou a verdade:

– Aquela lá é a tua mãe. Hoje ela está casada com o nosso técnico.

O sangue empedrou nas veias de Roberto. Sua mãe! Casada com o técnico! O homem que a levara embora de casa era agora o seu próprio técnico! A cabeça de Roberto começou a girar: então era por isso que ele estava no time? Por isso que era o capitão? Simplesmente porque o treinador carregava uma pedra de arrependimento na consciência???

Roberto passou a achar que não jogava tão bem assim. Decidiu que não ia disputar o clássico. Mas o técnico e os outros jogadores insistiram: ele tinha que entrar em campo, ele era importante para o time. Roberto não queria, mas vestiu o uniforme, calçou as chuteiras e foi para a final. No primeiro tempo, distraído, ele só olhava para as arquibancadas: num canto estava seu pai; no outro, sua mãe, com quem jamais havia falado; e, no banco de reservas, o marido da sua mãe e seu treinador.

Não tocou na bola. Durante o intervalo, pediu para ser substituído. O técnico não deixou. E então, no fim do segundo tempo, aconteceu o pênalti. Roberto não queria cobrá-lo, mas o técnico e os colegas praticamente o empurraram para a grande área. Ele olhou para a bola mais uma vez, suspirou, e as lágrimas lhe turvaram os olhos. Correu para a bola com raiva.

Roberto Alves contou-nos sua história num café de Königstein. Eu, o Professor e o Mário Marcos ouvimos em silêncio, sem fazer qualquer pergunta. Contou-nos que só falou com sua mãe três vezes, que tentou visitá-la, que a convidou para que conhecesse os netos, mas ela nunca se interessou pela aproximação. Na última Copa do Mundo, na Coréia, a mãe de Roberto Alves morreu. E, do outro lado do mundo, ele chorou. Como chorou ao correr para bater aquele pênalti. Não foi em vão que o chute saiu fraco, praticamente uma atrasada para o goleiro, erro que deu o título ao Figueirense e que terminou com a história de Roberto Alves como jogador de futebol. Em compensação, foi naquele pênalti que começou sua trajetória como comentarista esportivo, e hoje Roberto Alves está na Copa, contando-nos histórias que quase sempre nos fazem rir, mas às vezes nos fazem emudecer.

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