Na cama com a história

O melhor deste Carnaval carioca não desfilou na avenida, foi ao ar no início da semana pelas ondas do rádio e tem enredo de escola. Virgínia Lane, a ?Vedete do Brasil?, revelou que estava na cama com Getúlio Vargas quando quatro encapuzados invadiram o quarto e assassinaram o presidente.

Entrevistada por Francisco Canazio, da Rádio Globo, Virgínia Lane declarou que estava embaixo de um lençol quando quatro encapuzados invadiram a alcova de Getúlio Vargas e fuzilaram a história oficial. Seria o samba da vedete doida? Ou a revelação só acrescenta cenas de pornochanchada à tragédia do Palácio do Catete?

O que segue é um resumo da entrevista de Virgínia Lane, a vedete do teatro rebolado; e os professores de história que acreditem, se quiserem.

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?Ele foi a paixão da minha vida. Foram 15 anos de relação, de amizade, de conselhos. Nos conhecemos no Teatro de Recreio, onde ele tinha um camarote exclusivo. Freqüentei muito o Palácio do Catete e vou dizer uma coisa pela primeira vez. É meio perigoso! Eu estava na cama com ele, quando entraram e mataram o presidente.

O Getúlio foi assassinado. Eu estava na cama com ele. Isso eu ainda não contei pra ninguém: eram quatro homens de máscaras. Me arrancaram da cama pelo pescoço, pelo cabelo. Ainda deu para chamar Gregório Fortunato. Getúlio ainda não tinha sido atingido quando pediu para Gregório Fortunato me jogar pela janela. O Gregório chegou e me atirou pela janela. Caí no jardim do palácio. Caí lá embaixo e fraturei costela, braço e perna.

Eu nunca revelei isso porque achava que não era a hora ainda. Getúlio sempre pediu demais para que eu calasse a boca e que nunca comentasse.

Ele morreu na hora, depois dos tiros. Quando ele começou a ouvir barulhos, sentiu que tinha gente tentando entrar à força; ele já sabia que ia ser assassinado. Ele já tinha me pedido: se me acontecer alguma coisa, você nem precisa tocar nisso. Ele já esperava que ia ser assassinado.

Por que os assassinos não atiraram no Gregório? Gregório me atirou pela janela e depois pulou numa árvore e veio dar comigo lá embaixo. Agora você não sabe do melhor: enquanto dois dos encapuzados ficaram lá em cima, outros dois desceram, correram para o jardim e me deixaram nua em pêlo. Tiraram minha roupa e me disseram assim: agora vai, vagabunda, vai andar nua e vai arrumar outro presidente. Me chamaram de vagabunda! E ainda por cima me chamaram de vagabunda!

Eu sou uma testemunha ocular viva. E direta, porque eu não fui uma mulher que teve um casinho com ele, não. Eu tive quinze anos deitando e levantando com Getúlio.

Getúlio não se matou. É tudo mentira da história. Eu morro com uma arma apontada para minha cabeça, mas eu morro dizendo a verdade. Só não posso afirmar quem mandou matar. Mas Getúlio comentava sempre comigo, que isso podia acontecer; ele falava que tinha medo do Lacerda.

Eu não tenho medo do que estou contando, porque eu tenho isso guardado há muitos anos. E se fizerem alguma coisa comigo… sabe que idade estou fazendo agora, no dia 28 de fevereiro? 87 anos. Se quiserem fazer alguma coisa comigo, estejam certos: eu nunca vou mudar essa revelação. Eu também nunca vou mudar meu amor pelo Getúlio, que não foi em troca de coisa nenhuma, não. Porque se eu fosse uma mulher mais malandra, eu teria emprego público, estaria numa situação financeira muito agradável, e não estou. Eu não quis nada dele. Eu só tenho dele o orgulho, que qualquer mulher teria, de ser amante de um presidente da República?.

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Ao encerrar a entrevista, o radialista Roberto Canazio confessou que a história – ou estória? – o tinha feito ?perder o rebolado?. A revelação não ganhou maior repercussão, e nem poderia: Virgínia Lane, a ?rainha do rebolado?, também faria a história oficial ?perder o rebolado?.

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