Na boca do jacaré

?Onde tem jacaré, cachorro nada de costas, late e não morde?, dizia um atleta do Parque Barigüi, enquanto analisava as circunstâncias do crime em que um jacaré abocanhou um cachorrinho na margem do lago. A selvageria fez a Prefeitura tomar providências para expulsar toda a família jacaré do parque, e suscitou uma pertinente questão: que destino dar àqueles ameaçadores animais?

Numa só mordida, um dos jacarés engoliu a cabeça do cachorrinho e, com a carcaça entre as mandíbulas, submergiu na mancha vermelha de sangue que se formou na beira do lago. A cena de horror aconteceu no meio da tarde da terça- feira, estragou o último dia de Carnaval das dezenas de pessoas que presenciaram a refeição do jacaré.

Pasmas, testemunhas oculares agora pedem punição, a expulsão dos jacarés. Do mesmo modo como comeu um vira-lata, um daqueles monstros do lago pode mostrar os dentes ao piá desavisado, anunciam os profetas da tragédia.

Duas espécies são inquilinos do lago – o jacaré-do-papo-amarelo (Caimam latirostris) e o jacaré-do-pantanal (Caimam crocodilus) -, e ninguém sabe ao certo quantos deles ali têm domicílio.

Se perguntar ao poder público estadual, o governador Roberto Requião vai declarar que a Prefeitura está num mato sem o cachorro que o bicho comeu; e vai mandar Doático Santos soltar uma dúzia de jacarés no gabinete do prefeito. Na margem oposta, Beto Richa dirá que a meia dúzia de jacarés veio da gestão anterior e que, numa outra encarnação, Requião já foi crocodilo; o que explica tudo.

Governador e prefeito, como se vê, um quer ver o outro na boca do jacaré.

Uma dúzia ou meia dúzia, o que se sabe é que dois dos jacarés já foram retirados nesta sexta-feira. Só deve restar o mais veterano deles -há 20 anos tomando sol na antiga olaria, não tem mais forças nem para comer cachorro-quente com maionese – e a pergunta pertinente: qual será o destino deles?

Nestes tempos politicamente corretos, por certo não vão fazer sapatos, cintas, malas ou carteiras de luxo com pele de jacaré. Muito menos reduzir a maioridade penal do assassino – é ?dimenor? – e levar o famigerado à prisão de segurança máxima de Catanduvas, para fazer companhia a Fernandinho Beira-Mar.

São poucas as diferenças entre um jacaré esfomeado e um ?cerhumano? sem ter o que comer. Devemos temer é a transferência dos jacarés para um local não muito seguro, corre-se o risco de muito em breve eles serem vistos assaltando condomínios de luxo, promovendo arrastões na Avenida Batel, até batendo carteiras no Ligeirinho.

Portanto, se faz necessário que as autoridades dêem um destino com futuro seguro aos nossos jacarés; ou então assistiremos nas esquinas os menores jacarés jogando malabares para sobreviver.

Considerando que estes jacarés do Parque Barigüi são de espécies analfabetas, sem nenhuma qualificação para uma adequada inclusão social, precisamos estar atentos: com tantos jacarés desqualificados já ocupando cargos públicos, não vai causar surpresa um jacaré-do-papo-amarelo eleito prefeito ou vereador nas próximas eleições, deputado ou senador num futuro próximo.

O que não seria nenhuma novidade. Em 1959, o rinoceronte chamado Cacareco foi eleito vereador em São Paulo com cerca de 100.000 votos. Cacareco viera do Rio de Janeiro especialmente para a inauguração do zoológico paulistano, em setembro de 58. Virou celebridade: os cariocas o reclamavam de volta, os paulistas insistiam em ficar com ele; e o Cacareco se tornou uma das figuras mais lembradas do folclore político brasileiro.

Na luta pela sobrevivência, todas as espécies criam seus sistemas de proteção: basta um daqueles répteis alçar vistoso posto público, e sua própria natureza arrasta consigo o resto da família. Nas águas turvas do nepotismo, veremos os jacarés do Parque Barigüi abocanhando cargos de confiança, nadando de costas no remanso do poder.

Se outro destino melhor não for dado aos nossos jacarés, sejam eles então removidos do Barigüi para o Lago Paranoá. Brasília é um destino ingrato, mas pelo menos naquelas águas eles oferecem menos perigo: jacaré miúdo morde 10%, o graúdo um pouco mais. 

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