Desde março de 2004 estamos acompanhando o drama dos jacarés do Parque Barigüi. ?O despejo dos jacarés?, era o título da crônica que contava mais um capítulo da interminável novela da família jacaré, em 14 de setembro de 2005.

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Nessa data, tínhamos entrevistado o nosso estimado jacaré-do-papo-amarelo, surpreendido com a companhia indesejável de outros dois companheiros da espécie pantaneira do Mato Grosso. Intrusos da família Cayman crocodilus. Não apresentaram documentos ao prefeito Beto Richa e, portanto, se encontravam em situação irregular na municipalidade, sem o devido habite-se na vizinhança da alta burguesia curitibana.

Em setembro de 2005, a secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) solicitou autorização ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) para o resgate e a conseqüente expulsão dos invasores do lago. Com prerrogativas por tempo de serviço, apenas nosso velho jacaré-do-papo-amarelo deveria ser mantido no Parque Barigüi, por se tratar de personagem da cidade já tombado pelo Patrimônio Histórico, com sotaque leitE quentE e perfeitamente adaptado aos hábitos curitibanos.

Com este lamentável episódio do cachorrinho que foi comido por um dos jacarés, a Prefeitura radicalizou e decidiu expulsar toda a família Cayman do parque. Amplo, geral e irrestrito, o despejo vai pôr fim a uma longa disputa pelo espaço político do lago, que vem desde 2004.

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Entrevistado na época por este repórter, o intruso jacaré do Pantanal contestava a oligarquia local:

– Precisamos deixar bem claro para a população de Curitiba que o papo-amarelo é de uma geração que está no poder no lago há mais de três décadas. Precisamos oxigenar as águas do Barigüi, dar mais transparência e oportunidades aos outros segmentos da sociedade organizada do Barigüi. Chega dos mesmos!

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Já naquela época os segmentos organizados do lago rejeitavam o ato radical que hoje está sendo tomada pela municipalidade:

– Os técnicos estão pensando em nos despejar para um novo domicílio, uma falsa medida de prevenção para a segurança dos usuários do parque. São resquícios do autoritarismo.

Ouvindo as duas partes, entrevistamos também o pioneiro jacaré-do-papo-amarelo. Atento à CPI do Mensalão, o decano do lago fez questão de justificar por que pedia a expulsão dos pantaneiros.

– O mar de lama é irrestrito e também atingiu nossas já insalubres águas. É do conhecimento de qualquer freqüentador do Barigüi que estes intrusos nasceram em cativeiro, na fazenda do Delúbio Soares. Contrabandeados, eles se alimentavam de um caixa 2 escondido sob o lodo, que só veio à tona com a denúncia de um bagre ensaboado. O preço da liberdade é a eterna vigilância: temos notícias de que estão planejando jogar aqui no lago não só o Fernandinho Beira-Mar, como também Paulo Maluf e família.

E ainda José Janene, o ex-mensaleiro aposentado por invalidez – acrescentaríamos a este desequilíbrio ecológico sem precedentes.

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Curitiba está assistindo a conflitos sem precedente no mundo animal, como se não bastasse a guerra entre os bípedes Beto Richa e Roberto Requião: depois dos jacarés, as capivaras. Acusadas de invadir condomínios de luxo no entorno do Parque Tingüi, cinqüenta capivaras também estão ameaçadas de despejo. Moradores da valorizada região, preocupados com o destino de seus chiques cachorrinhos, preparam um abaixo-assinado pedindo que as dóceis capivaras de hábitos noturnos amanheçam na boca do jacaré, em algum lago alhures.

Socorro, Cora Rónai, santa protetora das capivaras nas águas da Guanabara!