Muros de vergonhas

Chega de intermediários; Duda Mendonça para presidente. O Brasil precisa de notícias boas, uma janela cor-de-rosa para o mundo. E estão cobertos de razão o presidente Lula e o ministro Luiz Gushiken quando palpitam sobre o comportamento da imprensa brasileira, imaginando os meios de comunicação como meras sucursais do poder, um buquê róseo da realidade brasileira. Ao recomendar que a imprensa busque o lado bom de um disco ruim, Luiz Gushiken lembra o marechal Costa e Silva, conforme lembrou o jornalista Anselmo Gois. Nos anos 60, o marechal reclamou com a condessa Pereira Carneiro, dona do Jornal do Brasil, dizendo que o jornal fazia muitas críticas ao governo. Ela argumentou que eram “críticas construtivas”. No que o marechal rebateu: “Pode ser, mas prefiro mesmo é elogio”.

Nas últimas semanas, a notícia virou release do inferno. Do primeiro ao último bloco dos noticiários, manchetes da desgraça. De furacão a invasão, vivemos numa terra arrasada. Mas nem só de sangue vive a imprensa brasileira e, pra não dizer que ela não fala de flores, também fala de artes. Em São Paulo, por exemplo, bandidos assaltaram a mostra de Picasso. O Pavilhão da Oca, no Parque Ibirapuera, onde estão expostas 126 obras do pintor Pablo Picasso, seguradas em R$ 2,5 bilhões, foi assaltado por três homens armados com pistolas e uma submetralhadora. Ladrões renderam a segurança e tentaram invadir o pavilhão, mas só levaram um rádio. Os larápios não ficaram só no prejuízo, portanto. Com o rádio, eles puderam acompanhar mais uma sinistra novela que se desenrola na Cidade Maravilhosa.

Neste último capítulo, o vice-governador carioca Luiz Paulo Conde anunciou a construção de um muro com três metros de altura, para frear o crescimento da favela da Rocinha e evitar que os traficantes usem a mata como rota de fuga. Outro personagem do mesmo folhetim, o prefeito César Maia bateu na mesa e lembrou que o muro criaria uma espécie de parque temático da cocaína. Um “Cocaine World”, com roletas eletrônicas nas 50 bocas-de-fumo.

Sim, o vice-governador se arrependeu do palpite infeliz. No fundo, no fundo, foi uma incontinência política de Luiz Paulo Conde. O que ele queria propor, na verdade, era construir um descomunal muro cercando os bairros da zona sul do Rio de Janeiro, protegendo o distinto e abastado público consumidor carioca de seus bárbaros fornecedores de maconha e cocaína. “Os traficantes só vão parar de vender drogas se não tiver quem compre”, argumentam intelectuais, acrescentando que uma boa parte dos cariocas precisa parar de fazer campanhas de paz num dia, e no outro subir o morro atrás da droga.

Rio de Janeiro, gostamos de você. Seria uma lástima envolver a mais bela cidade do mundo com um gigantesco muro de três metros de altura, cercando o Leblon, Ipanema, Leme, Copacabana, Lagoa Rodrigo de Freitas, Gávea, Jardim Botânico e demais cenários preferencias da Rede Globo. Mas a idéia não é de se jogar fora, especialmente para uma futura produção global que poderíamos chamar de Big Brother Rio. Ou seja, com a zona sul perfeitamente isolada por muros, sem contato de qualquer espécie com o tráfico; monitorada diuturnamente pela telinha, teríamos a maior audiência da história da televisão brasileira. Não pela curiosidade em torno da intimidade dos cariocas, já copiados no Brasil e no mundo. Curioso mesmo seria ver Pedro Bial eliminando o pitbull carioca que se atrevesse a pular o muro, em busca de cocaína na favela da Rocinha.

Outra cidade que podia ser perfeitamente murada é a Capital Federal. Confinados em Brasília e protegidos da realidade, Lula e Gushiken só teriam notícias boas do Brasil…

Até sexta-feira, depois do tiroteio das oito.

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