A bola está prestes a rolar na Alemanha e aqui, nos campos do Paraná, as oposições não conseguem escalar uma dupla de ataque para enfrentar o governador Roberto Requião.

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No início da noite de segunda-feira passada, a oposição marcou uma reunião de cúpula para decidir de uma vez por todas o que talvez, quem sabe, ainda será decidido.

Para dar um caráter próprio ao encontro, o conclave dos cardeais foi agendado para o início da noite, no alto muro do Cemitério Municipal. Local propício, levando em conta que os tucanos formam a maioria absoluta do colegiado.

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Enquanto a oposição ensaiava tomar uma atitude, no mesmo horário Roberto Requião reunia colaboradores mais íntimos para tomar aperitivos no Bar Botafogo, na maior descontração. Pediram cerveja, caipirinha e, quando o garçom Furlan foi servir porções de pizzas, alguém da roda solicitou:

– Que tipo de óleo de oliva vocês têm?

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– Não se preocupe, secretário: aqui não trabalhamos com produtos transgênicos.

O governador se escangalhou de rir. E tinha bons motivos.

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A reunião de tucanos e outras aves não estava assim tão descontraída quanto costumam ser os aperitivos de fim de expediente do poder.

No muro do Cemitério Municipal, se disseram presentes os seguintes próceres da oposição: senador Alvaro Dias, deputado federal Gustavo Fruet, presidente da Assembléia Legislativa Hermas Brandão, deputado estadual Waldir Rossoni, prefeito Beto Richa, deputado federal Afonsinho Camargo, o articulador político Euclides Scalco, deputado federal Luiz Carlos Hauly e o senador Osmar Dias.

O Cemitério São Francisco de Paula, mais conhecido como Cemitério Municipal, é o mais antigo de Curitiba. Até 1853 era chácara do padre Agostinho Macedo de Lima. A pedra fundamental foi lançada em 1.º de dezembro de 1854, pelo primeiro senador e conselheiro da Província, Zacarias de Góes e Vasconcelos. É uma espécie de síntese da história curitibana, simbolizando os estilos arquitetônicos de várias épocas e a prosperidade de uma cidade que florescia no ciclo da erva-mate. Ali foram sepultados os mortos da Revolução Federalista de 1894 e nele se encontra o túmulo da heroína e mártir da crença popular, Maria Bueno, o mais visitado no Campo Santo.

Para uma reunião que poderia decidir a futura história política do Paraná, aquele muro forrado de heras não podia ser melhor palco. Com todos bem acomodados no topo, e voltados para o Centro Cívico, o articulador Euclides Scalco foi o primeiro a se manifestar:

– Senhores do conselho, o tempo passa, o tempo voa…

– … e o Requião continua numa boa, tomando um aperitivo lá no Bar Botafogo -completou o senador Alvaro Dias.

– O tempo urge! – bradou o deputado Hauly.

– Urge, não. Ruge! – corrigiu Gustavo Fruet – Porque esse pobre cristão que vos fala já foi jogado às feras.

– Calma, que o leão é manso! – interveio Osmar Dias – Não tenho do que me queixar do meu amigo Roberto: almoçamos juntos e ele até pagou a conta.

– É aí que mora o perigo, senador! Você ainda vai acabar sendo almoçado por ele! – advertiu o deputado Valdir Rossoni.

– Vamos ao ponto! – pediu a palavra Hermas Brandão – É quanto a isso que precisamos deliberar. Quem vai ser almoçado: Osmar, Alvaro ou Gustavo?

Senador Alvaro Dias, que procurava com olhos ávidos o túmulo da loura fantasma, se colocou à disposição do partido:

 – Osmar, verás que um irmão teu não foge à luta! Se for para o bem de todos e a felicidade geral das oposições, digam ao Requião que não existe almoço grátis!

– Abaixo desse muro, milhares de túmulos nos contemplam. Veja lá onde Alckmin está enterrado, senador! – ponderou o prefeito Beto Richa.

O articulador Euclides Scalco foi quem abriu e encerrou o conclave tucano, no alto dos muros de São Francisco de Paula:

– Senhores, em respeito aos mortos, já se faz tarde. Marcada está uma nova reunião. Vamos ouvir as bases, agora nos muros do Cemitério da Água Verde.