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| Com Hermenegildo Sábat, o mestre caricaturista. |
Rio de Janeiro – Uma "colônia de férias de cartunistas". Essa é a piada corrente entre os profissionais do traço e troça, quando se referem aos tantos salões de humor gráfico que realizam mundo afora. Dos pequenos e pouco conhecidos, como o de Caratinga, terra natal de Ziraldo, até o novo e poderoso Salão Internacional de Foz do Iguaçu e este que transcorre aqui no Rio de Janeiro: o XVI Salão Carioca de Humor.
Dezenas de cartunistas hospedados num hotel estrelado, em Ipanema, lembram de fato uma divertida colônia de férias. E não seríamos nós a perder essa piada. Se assim parece, assim é: a profissão é diversão e ainda somos pagos por este grande prazer. Alguns muito bem pagos, outros nem tanto. Mas ninguém reclama da "colônia de férias". O que se reclama é do mercado editorial brasileiro cada dia mais estreito, atingindo profissionais de imprensa, de modo geral. Dos reclamantes, o principal deles é o cartunista Jaguar, o grande homenageado desta edição do Salão Carioca: "Acho um absurdo chamarem o Zeca Pagodinho para propaganda de cerveja. Em matéria de birita não tem metade da minha experiência. E cobro mais barato".
Também um grande prazer é conhecer pessoalmente novos e velhos colegas desta "colônia de férias". De Belo Horizonte, veio o cartunista Quinho, que muito prazer tem dado aos leitores mineiros. Jean, da Folha de S. Paulo, da mesma geração de Quinho, e Ronaldo, da minha geração, um médico gaúcho, de Vacaria, que, entre um plantão e outro de clínico geral, é o cartunista brasileiro mais premiado em salões internacionais. Também tive o grande prazer de conhecer nestes dias dois outros ilustres personagens: a carioca Laura Alvim e o uruguaio, mas vindo de Buenos Aires, Hermenegildo Sábat.
Laura Alvim é nome do Centro Cultural, dirigido por Eliane Caruso – mulher de Chico Caruso -, que abriga este Salão Carioca de Humor. Laura Agostini de Villalba Alvim, uma mulher especial. Nascida em 1902, neta de Angelo Agostini, fundador da Revista Ilustrada, maior chargista e caricaturista do Segundo Reinado, e filha do médico Álvaro Alvim, introdutor do raio-X no Brasil. Na década de 20, seu carisma atraía raras jóias da vida cultural da então capital da República para a sua residência, herdada do pai e erguida na Avenida Vieira Souto, em Ipanema. Mulher sedutora, de gênio irreverente e contestador, levou Darcy Ribeiro a chamá-la de "a garota de Ipanema dos anos 20s". Pobre menina rica, Laura morreu em 1984, e seu fim de vida foi solitário e miserável, pois toda sua imensa herança foi aplicada na realização de seu sonho: a Casa de Cultura Laura Alvim. Mocinha cobiçada, com uma casa cobiçada: quase no fim da vida, mesmo precisada, chegou a recusar os 20 milhões de dólares oferecidos pelas incorporadoras, para que lhes alienasse um dos endereços mais cobiçados do mundo, os mil metros quadrados da Avenida Vieira Souto. A casa em que o cientista Álvaro Alvim morreu, e onde Laura bem viveu, hoje abriga o Salão Carioca de Humor. Para gáudio de Angelo Agostini, nosso padroeiro.
Nascido no Uruguai, Hermenegildo Sábat é o mestre caricaturista da América Latina. Sua sofisticada obra é credencial do jornal El Clarin, de Buenos Aires, e ponto de referência para os caricaturistas do mundo. Agora também tive o prazer de conhecê-lo. Levei de Curitiba um dos seus mais reverenciados álbuns, Al Troesma com cariño, dedicado a Carlos Gardel. A edição é de 1971 e, mesmo prejudicada pelo manuseio, foi um prazer receber do mestre, com carinho, a dedicatória assim tardia no surrado exemplar. Em troca, lhe dei um exemplar do meu Botecário, o dicionário de boteco. No dia seguinte, no festivo café da manhã, Hermenegildo Sábat me saudou com um abraço: "Seu livreto é muy maravilhoso!"
Foi mais que um prazer.
Até domingo, quando retorno.
