Aos avessos às ciências, uma diversão para entender os princípios da química, física, biologia, astronomia, dando boas gargalhadas. Por que o hemisfério norte está experimentando a maior mudança climática dos últimos 1.200 anos? O livro Breve história de quase tudo, de Bill Bryson, tem respostas para muito de quase tudo.
Seria um livro de humor, um livro de ciência, ou uma grande reportagem? Bill Bryson inspirou-se na própria ignorância para escrever essa divertida e Breve história de quase tudo – 541 páginas, Companhia das Letras. Um dia, já autor consagrado, descobriu do alto de um vôo intercontinental, ao ver pela janela o vasto oceano, que não sabia por que a água do mar era salgada. E o pior, não tinha a menor idéia sobre o funcionamento deste único planeta onde estamos condenados a viver. Bryson foi à luta, largou o jornal para testar até onde se pode chegar com um caderno de anotações em punho.
?O mundo seria mais simples se a fórmula deste livro constasse dos cursos de jornalismo?, escreveu na orelha Marcos de Sá Correia.
Como descobriram o peso da Terra, ou a idade das rochas, ou o que existe no centro do planeta? E se o nêutron tivesse sido isolado na década de 1920 – e bem poderia -, o que teria acontecido?
É bem provável que a bomba atômica tivesse sido desenvolvida primeiro na Europa, sem dúvida pelos alemães. Os cientistas conseguem prever quase tudo? Nem sempre. Nunca vão conseguir prever, nem deter, por exemplo, um meteorito viajando em velocidade cósmica em direção à Terra. Seria o Bang! No instante de sua chegada à nossa atmosfera, tudo no caminho do meteoro – pessoas, casas, fábricas, carros – se enrugaria e desapareceria qual papel celofane numa chama.
Isso pode acontecer? Pode, a qualquer momento. E, lembre-se, o mais provável é que isso ocorra sem aviso prévio, vindo do céu claro.
Essa parte não é pra rir, é pra chorar. De morrer de rir temos a história de um bando de cientistas franceses que foram ao Peru medir o tamanho da Terra.
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A expedição andina da Academia Real Francesa, de 1735, foi a menos aprazível viagem de campo científica de todos os tempos, quando as coisas começaram a dar errado, e de forma dramática. Em Quito, os cientistas de algum modo provocaram a população local e foram expulsos da cidade a pedradas. Um médico da expedição foi assassinado porque cantou uma mulher casada e um botânico ficou demente. Outros morreram de febres e quedas nas montanhas. O cientista mais velho do grupo, um homem chamado Pierre Godin, fugiu com uma menina de treze anos sem que ninguém conseguisse deter o velhinho tarado.
Os cientistas franceses sempre foram curiosos. Especialmente um camarada chamado Antoine-Laurent Lavoisier. Nascido em 1743, Lavoisier era membro da nobreza. Em 1768, comprou uma participação numa empresa arrecadadora de impostos chamada Ferme Générale (Fazenda Geral). No fundo, no fundo, ele era um sujeito bonzinho, porém prezava acima de tudo os seus fundos bancários: sua empresa, concessão do rei, não taxava os ricos, somente os pobres, e arbitrariamente. No auge, sua renda pessoal atingiu 150 mil libras por ano – a ninharia de 20 milhões de dólares em moeda atual – e casou com a filha de 14 anos de um dos seus sócios. Foi aí que ele começou a provar – imagino eu – que na natureza nada se perde, tudo se transforma.
Em outubro de 1793, Maria Antonieta foi mandada para a guilhotina. Em seguida, Lavoisier e outros sócios da Ferme Générale seguiram o mesmo destino da realeza.
Nada se perde, tudo se transforma: cem anos após sua morte, uma estátua de Lavoisier foi erguida em Paris, até que alguém observou que não se parecia nem um pouco com ele. Ao ser interrogado, o escultor admitiu que usara a cabeça do matemático e filósofo marquês de Condorcet – que tinha em reserva -, na esperança que ninguém notasse a fraude. Todos notaram, mas ninguém se importou.
A estátua ficou daquele jeito, no mesmo lugar, até a Segunda Guerra Mundial, quando, certa manhã, foi levada embora e fundida como sucata.