Millarch, segundo Schaitza

Na tarde de ontem, o Solar do Barão promoveu uma mesa-redonda sobre o falecido jornalista Aramis Millarch, dentro de um belo curso sobre Jornalismo Cultural. Exatamente quando lembramos os 10 anos de ausência de Aramis nas páginas de O Estado do Paraná, no dia 13 de julho de 1992. O encontro foi quase uma sessão espírita, tanto lembramos passagens da vida do titular da coluna Tablóide. Entre os amigos presentes, ficou faltando o jornalista Renato Schaitza, também ex-colunista da casa. Com Dione, ela agora não quer outra vida, senão sombra e água fresca de Caiobá ou Fortaleza. Talvez Barcelona, dia desses.

Mas Renatinho não escapa: sobre o Aramis, ele escreveu estas jóias de memórias.

Aramis Millarch era o mais jovem da minha geração de jornalistas. Chegou à Editora O Estado do Paraná com 17 anos, bem no início dos anos 60. Como todos que já lá estavam, lembro da figura magrinha do menino, andando nos longos e escuros corredores do velho prédio da rua Barão do Rio Branco.

Lá vinha ele, no jeito de andar que nunca perdeu. Passos curtos e apressados, cabeça baixa, caminhando bem rente à parede. O pensamento sempre divagando sobre as informações que iria redigir, cavocadas nos bolsos atulhados de papéis.

Voltamos a trabalhar juntos na Útima Hora paranaense. Saí meses antes da revolução de 1964. Aramis não teve tanta sorte. Ficou até o fechamento dos jornais pelos militares governantes. Não importa que escrevesse a coluna Luzes da Cidade, uma inocente crônica social do que acontecia nos clubes populares de subúrbio. Foi indiciado, assim mesmo, no inquérito Policial-Militar que apurava quem seriam os “subversivos” da UH.

Os repetidos depoimentos, a insegurança pessoal, e um preconceito geral, tudo isso incomodava muito o pacato Aramis, que um dia me confidenciou:

– Como faço crônica social de bairros, acho que eles pensam que sou a tal esquerda festiva.

O Juca Campos Hidalgo e eu fomos conhecer o Bebedouro, que o Dino Almeida havia montado no Largo da Ordem. Bem mais tarde entra o Aramis, senta-se à mesa. Inventei de advogar a causa de Sylvio Back, o cineasta, que também fora jornalista conosco, que jamais era mencionado em suas colunas culturais. Bem feito: fiquei conhecendo a face intransigente do Aramis Millarch:

– Ao Sylvio, o máximo que posso dar é o silêncio. Certa vez, eu pensei que tinha dez amigos. Depois reduzi para quatro. Hoje acabei de descobrir que talvez não tenha nenhum amigo…

Levantou-se da mesa e foi embora.

Bobagens da madrugada. Continuamos sempre amigos cordiais. Numa outra conversa, sobre o fato de termos ambos aceitado escrever para a revista Oeste (Cascavel) sem nenhuma remuneração, comentei:

– Pô, Aramis: você trabalha em excesso. Qualquer órgão de comunicação impressa, lá está você…

– Isso eu já decidi faz anos. Ocupo qualquer espaço de comunicação que Deus me abrir.

Isso dá bem a idéia da capacidade de trabalho deste nosso grande homem. Com o passar dos anos, e com todo mérito, veio ocupar o título de nosso melhor jornalista da área cultural. Um fato reconhecido nacional e internacionalmente: na sua área foi um dos mais importantes cronistas brasileiros, convidado permanente de festivais de cinema, música ou literatura, Tem um trabalho seu , para rádio, que foi uma das coisas mais bonitas e inteligentes que jamais ouvi: contava as biografias de compositores da MPB, relacionando fatos de suas vidas com músicas neste ou aquele momento.

Contaram que Aramis morreu debruçado sobre sua máquina de escrever. Eu o ajudei a comprar uma máquina eletrônica no Paraguai, mas ele continuava usando a velha carroça, companheira de tantos anos.

Morreu no lugar certo. Fazendo o que sempre fez. Abraçado com o instrumento onde compunha como poucos a história informal de nossa comunidade. Só ficou a máquina mecânica, foi-se a máquina de escrever pensante.

Até domingo, Renato Schaitza: como é bom te ler de novo!

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