Nos anos 80s, a manchete de primeira página deste O Estado do Paraná saiu com todas as letras, e garrafais: ?Curitiba joga merda na água que bebe?. O jornal não falou merda, falou a pura verdade. E se repetisse a manchete agora, não seria nenhuma falação, impostura, conversa fiada, lorota ou charlatanice.
Mas nos dias de hoje, nunca se falou tanta merda neste país. No Congresso, nas CPMIs, nos discursos ao vivo na televisão, só se fala isso. Sobre o PT, que só tem feito cacaca, nunca se falou tanta merda; e sobre o plebiscito do comércio de armas de fogo e munição no Brasil, nunca se falou tanta merda. Na imprensa, só não se fala tanta merda quanto em Copa do Mundo, quando ninguém escapa de fazer juízo de merda sobre a seleção.
On bullshit é a expressão em inglês usada para desqualificar alguma declaração de merda e também o título original do livro Sobre falar merda escrito pelo filósofo da Universidade de Princeton (EUA), Harry G. Frankfurt.
Nos Estados Unidos, a obra já está na décima edição e está na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times, aquele jornal cujo correspondente no Brasil também é especialista em falar merda.
A obra não é um tratado sobre a merda orgânica. É sobre a merda oral, o que é de fato falar merda. E o que é falar merda? No primeiro parágrafo do livro de 68 páginas, R$ 19,90, ed. Intrínseca, letras enormes e que se lê numa sentada, o autor Harry Frankfurt não deixa a menor dúvida:
?Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fale tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte. Mas tendemos a não perceber essa situação. A maioria das pessoas confia muito em sua capacidade de reconhecer quando se está falando merda e de evitar se envolver. Assim, o fenômeno nunca despertou preocupações especiais nem induziu uma investigação sistemática?.
Falação, impostura, conversa fiada, lorota, charlatanice, em suma, é tudo a mesma merda. Mas não confunda merda com mentira. O falador de merda, alerta o autor, quer apenas impressionar, passar uma impressão diferente sobre si mesmo. Ele não está, necessariamente, sendo falso ou mentiroso. O falador de merda não está nem aí para a verdade e os fatos. O mentiroso esconde fatos que conhece. Inventa deliberadamente sua história, mas respeita a verdade, mesmo fugindo dela. E aí é que está a grande merda: justamente por conta do desrespeito pela verdade é que o falador de merda é mais perigoso que aquele que mente.
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Na música, Caetano Veloso tem uma composição com o título Merda, de 1986: Merda, merda pra você / Desejo merda / Merda pra você também / Diga merda e tudo bem / Merda toda noite e sempre a merda.
No teatro, merda é uma saudação de boa sorte. Na origem da expressão de ?auguri?, as pessoas chegavam aos teatros em carruagens. Quanto mais carruagens, mais merda os cavalos deixavam nas ruas e calçadas. Assim, muitas pessoas entravam no teatro com os sapatos sujos, de merda, e quanto mais merda deixada nos capachos, mais a casa estaria cheia.
Chico Buarque de Holanda jogou bosta na Geni, não jogou merda. Só usou da palavra quando sugeriu ao presidente Lula criar o Ministério do Vai Dar Merda. Lula não seguiu o conselho, seguiu fazendo e falando merda. ?Eu gostaria de ter estudado latim, assim eu poderia me comunicar melhor com o povo da América Latina.? / ?Uma palavra resume provavelmente a responsabilidade de qualquer governante. E essa palavra é ?estar preparado?.? / ?O futuro será melhor amanhã.?
Que merdéu, Luiz Inácio!!!
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Assim como no teatro, merda pra mim, que acabo de completar cinco anos escrevendo esta coluna, três vezes por semana, 12 por mês, noves fora férias, 132 colunas por ano. Devo ter escrito muita merda.