Meu nome é Beleléu. Beleléu Cucuia. O primeiro Cucuia veio ao Brasil a mando de João VI para administrar o tesouro da corte nesta então colônia. Seu nome era Babau. Babau Cucuia. Quando aqui aportou, D. Pedro I declarou a independência de Portugal, seqüestrou o tesouro e o patriarca Babau Cucuia ficou no porto do Rio de Janeiro a ver navios.

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Na nossa família está a gênese da expressão: quando alguma coisa se perde, se vai, some, desaparece… babau, foi pra cucuia! A esposa de Babau chamava-se Inês. Inês Cucuia. Nasceu dela outra expressão da língua portuguesa: ?A Inês é morta?. Quando o marido achou-se em desgraça, dona Inês morreu de desgosto. Ou seja: a Inês… babau!

Dizem que o homem de sorte é aquele que está no local certo, na hora certa. Não é a história da família: sempre estamos no local certo, mas sempre na hora errada. Esta é a sina da família Cucuia. Babau perdeu a boquinha e perdeu o rumo. Sempre atrás da fortuna, seguiu o rumo do vento. Naquela tarde de 8 de setembro de 1822 o vento soprava ao sul e foi para lá que o jovem Babau Cucuia seguiu. Sempre chegando ao lugar certo, mas na hora errada, Babau chegou ao Paraguai um dia antes de explodir a guerra do mesmo nome. Seus descendentes preservaram a tradição. Um dos seus filhos foi se unir às tropas de Giuseppe Garibaldi e, um dia antes de sua chegada a Laguna, o herói dos dois mundos retornou à Itália com Anita Garibaldi

Do incerto e não sabido veio meu nome: Beleléu Cucuia. Meu pai foi um dos fundadores do PTB e chamava-se Alhures. Alhures Cucuia. Nasci no dia 13 de agosto de 1954. Treze dias antes de papai tomar posse de um importante cargo no governo federal e doze dias antes de Getúlio Vargas dar um tiro no peito. O caudilho foi enterrado em São Borja e meu pai alhures.

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Minha mãe tinha um nome que representava o que minha família tinha de melhor: Esperança. Esperança Cucuia. Foi ela que sustentou a família e vive até hoje porque a esperança é a última que morre. Nos braços de mamãe fomos morar em Brasília, que ficou sendo a terra de dona Esperança, na esperança de dias melhores. Era o que se prometia, não fosse mamãe trabalhar de faxineira no Palácio Alvorada, nomeada por Jânio Quadros. O palácio era uma sujeira, quantas vidraças Oscar Niemeyer criou para mamãe limpar, quanta sujeira a coitada encontrou sob os tapetes, mas, mesmo assim, não renunciou ao dever. Quem renunciou foi Jânio Quadros e dona Esperança foi demitida no dia seguinte.

Aos trancos e barrancos, dona Esperança me mandou para a faculdade, que um canudo de advogado estava à minha espera. Em 1976 passei num concurso para o Banco do Brasil e fui trabalhar em São João del Rei, onde conheci Tancredo Neves, correntista da minha agência. De papagaio em papagaio, nasceu uma grande amizade e um emprego no gabinete do Dr. Tancredo. No dia 14 de março de 1985, véspera de sua posse, recebi um telefonema do Aecinho Neves.

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– Beleléu, o vovô está indo à missa no Santuário Dom Bosco e está sentindo muitas dores. Ele pediu para você passar na farmácia e comprar aqueles remediozinhos de sempre.

O resto da história todo mundo já sabe.

O dia 10 de fevereiro de 1980 ficou marcado como sendo a data da fundação do PT. Numa reunião realizada no Colégio Sion, cumpria-se uma formalidade indispensável para o registro da nova agremiação: a aprovação do manifesto do partido, com um mínimo de 101 assinaturas. A décima terceira assinatura é a minha.

Nasci em 13 de agosto e no dia 13 de agosto do ano passado Waldomiro Diniz foi exonerado do cargo de subchefia da Casa Civil da Presidência da República. No mesmo dia, recebi um telefonema do ministro José Dirceu:

– Beleléu, tenho um cargo para você aqui no palácio. Você topa?

Topei e, assim, cumpri os desígnios da família: no baile do PT, quando me tiraram para dançar… prenderam o gaiteiro.

Meu nome é Beleléu. Beleléu Cucuia, ao seu dispor.