Memórias de um recruta zero

Assistindo aos desfiles cívicos de 7 de Setembro, uma pergunta vem à baila e algumas lembranças se alevantam.

– Por que serviço militar obrigatório?

No verão de 1970, fui convocado e me apresentei ao Exército no quartel da Praça Rui Barbosa, a vetusta fortificação derrubada na década de 80. De seu imponente e medieval portão, se avistava o antigo Teatro de Bolso, última visão do recruta, antes de adentrar ao que hoje se rememora como “os porões da ditadura”.

As primeiras palavras para ilustrar a visão daquele portão vêm do famoso verso do Inferno de Dante Alighieri “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate”. Mas para lembrar das sombras da época, os versos introdutórios do Inferno de Dante nos dão uma outra versão da visão interior daquele quartel: “O voi ch’avette li ‘ntelletti sani, / mirate la dottrina che s’asconde / sotto ‘l velame delli versi strani” [Ó vós que tendes inteligência sadia, / atentai à doutrina que se esconde / sob o véu dos versos estranhos”]. (Dante, Inferno, IX, 61-63).

Era véspera de Copa do Mundo e os versos que tocavam no rádio eram da marchinha do “País que vai pra frente”, entoada com orgulho dentro e fora dos quartéis. Principalmente dentro, nas formaturas de rotina e nas doutrinas no auditório militar, quando os recrutas recém-chegados aprendiam que o Brasil não esperava de seus filhos, e soldados, nada mais, nada menos: Ame-o ou deixe-o!

Sem nenhuma comparação com o atual surto verde e amarelo do presidente Lula, e sua “jornada patriótica” – numa pregação tão nacionalista quanto as do general Médici, principal estrela de Amaral Netto, o repórter, aos próceres do FMI.

Só fui deixar daqueles muros dez meses depois, carregando na bagagem nada, absolutamente nada. A não ser a vaga lembrança de um ou dois amigos e a visão tétrica dos soldados da Polícia Especial do Exército escoltando uma fila sombria de homens caminhando perfilados aos muros, em direção de não se sabia onde. Mas se sabia por que, e ninguém se atrevia a perguntar por quê?

O que se murmurava era que o técnico João Saldanha teria sido demitido pelo general-presidente e as únicas perguntas permitidas diziam respeito à seleção brasileira: por que o técnico Zagalo não queria um ponta-esquerda e, afinal, Pelé estava mesmo ficando cego?

Cegos éramos nós recrutas, que não víamos – ou fingíamos não ver – tudo o que se passava nos porões do quartel. Mas não éramos surdos, que do alto das guaritas todos ouviam ruídos estranhos à cidade em volta, e não eram ruídos dos leões do Passeio Público, bem distante dali. Mas eram ruídos esquisitos.

Outras perguntas me faço só agora. Por que soldado fardado é proibido de usar guarda-chuva, mesmo estando de folga ou a passeio? Seria disciplina ainda da Guerra do Paraguai, quando quem estava na chuva tinha que se molhar? E por que, com tantos solertes inimigos da pátria rondando os quartéis, ainda se usavam na época armamentos herdados da Guerra do Paraguai?

Só quem patrulhava o entorno do Quartel General, onde hoje é o Solar do Barão, há de saber – e eu sei! – o que se passava no coração e mente de um soldado armado com um velho fuzil emperrado, quando estourava uma bombinha de São João lá no quarteirão alhures. Se no centro de Curitiba houvesse um mato, de minha parte teria me refugiado em alguma casa de tolerância da Rua Riachuelo e jogado o fuzil no mato, que o jogo era duro e de campeonato.

Por fim, resta a pergunta que me faço desde quando convocado, e o portão do quartel da Praça Rui Barbosa nos advertia: Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate!

– Por que serviço militar obrigatório?

Um dos companheiros de farda, depois de cumprir o serviço militar obrigatório, ganhou diploma de reservista da pátria. Passado algum tempo, foi contemplado com destacadas manchetes nas páginas policiais. Queima de arquivo, disseram os jornais.

Até sexta-feira, neste mesmo espaço obrigatório.

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