Hoje estou completando 56 anos. Ainda não deu pra ver tudo o que merece ser visto nessa vida. Mas deu para aprender algumas coisas. São tantas as falhas de currículo que só mesmo nascendo de novo.

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Das poucas coisas, deu para aprender que é preciso conservar os amigos e periodicamente renovar o apreço. E foi o que fiz neste sábado: convidei velhos amigos de teatro para uma feijoada. Como diria o iluminador Beto Bruel – também presente -, seria uma espécie de ?revoada das velhas águias?: o escritor Manoel Carlos Karam e a jornalista Kátia Kertzmann, o cartunista Solda com Vera; o diretor Enéas Lour e a atriz Fátima Ortiz; os atores Mário Schoenberger, Chico Nogueira; o produtor Beto Guiz com a jornalista Milzi Digiovanni; e a fotógrafa Lina Faria.

O espírito da feijoada – além da caipirinha com cachaça de Morretes – foi de cultivar a amizade e contar boas histórias; porque muito aprendemos fazendo teatro. Não é, doutor René Dotti?

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Dizem que no serviço militar se aprende muita coisa. De fato, aprendi que o picadinho do quartel era muito ruim. Ruim demais. Só não era tão ruim quanto a comida do seminário. Meu Deus, a fome era tanta que na calada da noite sumiam as hóstias da missa matinal. No almoço, arroz com melado de cana! Não era sobremesa, tínhamos por obrigação limpar até o derradeiro grão, na mira do padre superior.

De grão em grão, bem se aprende: só quem já passou fome não rejeita o que vier à mesa. O ex-seminarista Mussa José Assis, diretor deste jornal, sabe do que se trata, sabe o que já engolimos e ainda vamos encarar.

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Mussa nasceu em 6 de março. Com ele aprendi que a melhor e mais importante edição de um jornal ainda está para ser feita, é a do dia seguinte. Se hoje o serviço foi bem feito, no dia seguinte é preciso fazer melhor. E nada melhor que um dia após o outro.

Certa feita, um desafeto atacou a mim e ao falecido colunista Aramis Millarch. O ataque pessoal, na verdade, escondia uma ofensa a todos nós profissionais daquela redação.

Inteirado da tentativa de agressão, e dos fatos que se escondiam, Mussa pediu reserva e paciência para engolir. Tudo tem seu tempo. Tudo tem sua volta, e aquele episódio também teve sua volta. Assim, descobri que nada como um dia após o outro e, enquanto o tempo passa, é preciso ?sacudir a poeira e dar a volta por cima?.

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De bom grado aceitaria um presente nesse domingo, o texto do cartunista Solda que transcrevo abaixo, para aprender com o poeta.

UM DIA – um dia desses eu vou me misturar ao povo que está na ruas e finalmente vou descobrir pra onde todo mundo vai para onde vão as velhinhas com pacotes debaixo do braço? / para onde vão as senhoras gordas de cabelo encaracolado? / pra quê lado? / vou descobrir para onde vai a menina com o uniforme colegial / para onde vai o senhor grisalho com as mãos no bolso para onde foi o negro elegante que estava aqui há pouco / para onde foi o menino de boné vermelho / para onde foi o vendedor de bilhetes que sempre está gritando vaca galo cabra burro borboleta / um dia desses eu descubro pra onde vai a gorda que acabou de entrar num táxi / dia desses eu descubro para onde foi aquele tocador de gaita de boca e aquela limpadora de rua e aquela moça do estar e aquele sorveteiro e aquela loira com um disco do chet baker e aquele cara parecido com o rodrigão e aquele senhor de guarda-chuva e aquela moça chupando sorvete e aquele gordo desesperado e aquele médico que escorregou na calçada e aquele guarda que estava na esquina e as três meninas que olhavam a vitrine da sapataria e a velhinha de sombrinha verde que tentava atravessar a rua / dia desses eu descubro pra onde é que vão todas essas pessoas que atravessam a rua sem olhar para os lados / solda.