Crist, cartunista argentino que há 32 anos brilha diariamente na contracapa do jornal Clarín, de Buenos Aires, veio a Curitiba para participar da mostra ?Simplesmente Quino?, no Solar do Barão, festa cultural que se iniciou ontem, em comemoração aos 24 anos da Gibiteca de Curitiba, a primeira da América Latina. Se Quino não pôde comparecer por problemas de saúde na família, Crist veio representar o hermano por parte do humor.
Cristóbal Reynoso, o internacional Crist que nasceu e ainda mora em Córdoba, não mostrou ainda seus desenhos em Curitiba – além da participação regular no blog do cartunista Solda -, mas já aceitou convite do publicitário e escritor Ernani Buchmann para expor em março na sede da agência Getz. Enquanto se deliciava com o robalo grelhado do Bar do Victor, adiantou o tempero da mesa-redonda de ontem, no Solar do Barão, em torno do tema ?Ética e cidadania na obra de Quino?: ?Ele foi o cartunista que acabou com a ingenuidade do humor gráfico na América Latina. E, por supuesto, também acabou com a ingenuidade do leitor?.
De fato, depois do maestro Joaquim Lavado, Quino, os cartunistas latinos nunca mais foram os mesmos; e os leitores começaram a enxergar na charge e no cartum, muito mais que um desenho engraçado, uma obra de expressão crítica que, para muitos, alcança a literatura. É o caso da obra do pai da contestadora Mafalda. Como acrescenta Crist, ?Quino foi além, o mestre deu uma volta a mais no parafuso?.
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A exposição do argentino Quino no Centro Cultural Solar do Barão não é apenas um encantamento. Para aqueles que aprenderam nos gibis dos anos 60s e 70s, a visão dos 140 trabalhos do artista é momento para conferir o que tantos admiradores pelo mundo afora perguntam e respondem acerca da turma de Mafalda, aquela inconformada:
– Mafalda odeia sopa. É clássica a cena do prato de sopa gigante chegando e aterrorizando a pequena Mafalda. Segundo Quino, o que representa a sopa?
Resposta: As ditaduras, que sempre temos que engolir.
– Certo dia, Mafalda não sabia direito o que estava acontecendo no Vietnã, e foi perguntar para o pai. Ele disse que isso não era assunto de criança. O que ela respondeu?
R: Pediu para que ele explicasse sem as partes pornográficas.
– Como a Mafalda, foi criada?
R: Como publicidade disfarçada para uma firma de eletrodomésticos.
– De onde veio a inspiração para o nome da personagem Mafalda?
R: De uma menininha do filme Dar La Cara, de David Viñas.
– Em 1973, o escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) disse que não importava o que ele pensava da Mafalda. O que era realmente importante?
R: O que a Mafalda pensava dele.
– Felipe, outro personagem de Quino, voltou de seu primeiro dia de aula e Mafalda perguntou se ele já tinha aprendido a escrever. Ele disse que demorava meses. O que ela respondeu?
R: Malditos burocratas!
– Mafalda conseguiu aterrorizar seu pai, certa vez, às três horas da manhã. Como?
R: Disse que os chineses eram uma ameaça ao mundo ocidental. Enquanto ele dormia, os chineses estavam trabalhando.
– Mafalda viu um policial passar. Depois um operário. Depois um padre, e, logo em seguida, um gato. A que conclusão ela chegou?
R: Os gatos, que setor da democracia representam?
– Por que Quino disse que os Beatles o estragaram musicalmente?
R: Porque ele diz que agora nunca vai poder escutar outra coisa.
– Qual a explicação de Felipe para o interesse das pessoas nas novelas e o desinteresse delas nos problemas do mundo, como a guerra do Vietnã?
R: Ninguém se interessa numa luta entre maus e bons quando não se sabe o nome do mocinho.
– Segundo Mafalda, por que os países do hemisfério sul são subdesenvolvidos?
R: Porque, segundo o formato do globo terrestre, quem mora no sul está de ponta cabeça, portanto nossas idéias caem.