Alguém conhece alguma cidade onde toda sua população cabe dentro de suas igrejas? Pois assim é em Nova Trento (SC), a cidade de Santa Paulina, onde cada uma dessas tantas igrejas e capelas guardam longínquas histórias da imigração italiana. Uma delas, a capela de Santa Ágata do Besenello, preserva uma história muito singular. É a incrível história de uma obra original do pintor italiano Chiochetti roubada duas vezes.
Reconto aqui essa história, pois a conheço muito de perto: a capela de Santa Ágata fica exatamente ao lado da casa de minha família e o terreno onde foi erguida ainda hoje encontra-se registrado em nome de um tio.
Construída em 1884, foi a primeira matriz dos italianos que chegaram ao Brasil em 1875. Provenientes da região de Trento, deixaram na terra natal, no “paese” Besenello, uma outra igreja de Santa Ágata e um outro quadro de Chiochetti, retratando Santa Ágata: uma cópia exata feita pelo próprio mestre, do original que até hoje se encontra no Besenello de Nova Trento.
Sempre reverenciado no altar da capela, nos anos 60 o quadro de Santa Ágata foi emprestado para uma exposição no vizinho município de Brusque. Na ingênua burocracia neotrentina, ninguém se lembrou de pegar recibo para o empréstimo da valiosa obra, que lá ficou, por anos a fio, no Museu Arquidiocesano de Brusque. E sempre que a comunidade do Besenello solicitava sua devolução, o Museu Diocesano não só ignorava os pedidos, como também não reconhecia a existência de provas sobre a veracidade da propriedade.
Em 4 de outubro de 1981, Nova Trento ganhou 100 anos de perdão. Em soleníssima festa à qual ocorreram os neotrentinos todos, dotados de seu atávico sentimento religioso, o grande óleo sobre tela de Santa Ágata foi reintroduzido à capela do Besenello. Lágrimas afloraram aos olhos dos mais empedernidos “maschioni”.
A volta do quadro foi uma epopéia, cuidadosamente planejada em todos os detalhes. Num carro da Prefeitura, dois neotrentinos convictos seguiram para o Museu Arquidiocesano de Brusque. Enquanto uma neotrentina conversava com o pessoal do museu, o outro rapidamente retirava o quadro da parede, o colocava numa kombi e, aguardando a companheira de aventura terminar a conversa, já dava a partida. Embarcados ambos e o quadro, ele voltou a sua origem, gerando polêmica, nos anos seguintes, sobre a propriedade, entre o museu brusquense e os fiéis do Besenello neotrentino. Uma polêmica hoje encerrada, não só pela provada existência de uma cópia na Itália, como também pelo poderoso arbítrio de Santa Madre Paulina.
Foi uma espécie de “ladrão que rouba ladrão”. Assim, com cem anos de perdão e com o delito já prescrito, posso registrar que um dos ladrões foi minha mãe: dona Cremilda Tridapalli, que por um bom tempo escondeu o quadro embaixo de sua cama, enquanto os ânimos serenavam.
Neste domingo, 23 de fevereiro, teremos uma grande festa na igreja de Santa Ágata do Besenello, onde vamos comemorar a reabertura da capela, depois de quase dois anos sendo restaurada pelo Patrimônio Histórico. A banda vai tocar, o padre vai rezar missa e o povo vai orar, comer, beber e cantar.
Até domingo, portanto, na festa da igreja.