Mesmo no infortúnio, tudo tem seu lado bom. Há quem diga mais: tudo tem seu lado bom, menos os discos do Belchior. Ou do Chitãozinho e Xororó. Olhando com olhos de Polyanna – a menina do “Jogo do Contente”, imbatível otimista que via tudo pelo lado bom – o caso “Waldogate” tem também um lado bom para o PT: agora o partido já está liberado para uma ou outra falcatrua, pecados veniais ou mortais, ocorrências infelizmente inevitáveis a qualquer governo desse mundo de Deus. Assim nos Estados Unidos quanto na Inglaterra, no Japão quanto no Vaticano. No estado de graça onde se encontrava, a aura santa do PT parecia coisa de outro mundo. Assim, com uma mancha de caqui que amarra, eis agora um partido humanizado. Sujeito a todos os pecados próprios da condição humana. O PT mostrou que é gente, e também faz cacaca. Bem a propósito, podemos lembrar a frase de Caetano Veloso: “De perto, ninguém é normal”.

Mas tem o lado ruim. Numa falcatrua onde as peças do inquérito envolvem “jogo do bicho”, “bingo”, “jabaculê de mísero 1%”, o desenrolar dos acontecimentos tende a derivar para o traiçoeiro terreno da galhofa. O descalabro vira piada rasa, daquelas de contar no botequim. Piada fácil e quase pronta. Este é o lado ruim. Basta lembrar o caso do ministro Alceni Guerra: virou piada de bicicleta. Alguém lembra que o ex-ministro da saúde foi posteriormente inocentado? Raros têm essa memória. A maioria associa Alceni às bicicletas. Guarda-chuvas e bicicletas. Também é o caso de Rafael Greca: é bingo! Se ele é inocente enquanto não for julgado culpado, não importa: é bingo! Poucos lembram do lado bom do ex-prefeito cantando o bingo nas festas do Largo da Ordem. Bingo: lembram do lado ruim.

“Uma mancha de caqui que amarra” – diz a letra de um samba de Sérgio Mercer – Zé Dirceu vai carregar por muitos e muitos carnavais. O colunista de O Globo, Ancelmo Gois, lembrou ontem uma frase do ex-ministro Hélio Beltrão: “Tem assessor parlamentar e tem assessor para lamentar…”. Se o assessor Waldomiro Diniz estivesse tramando falcatruas na área do Banco Central, com nebulosos negócios de câmbio, fundos de pensões, contas CC5 com ramificações na Oropa, França e Bahia, por exemplo, os pecados seriam pagos nas páginas econômicas dos jornais, uma maioria desinformada não iria entender um parágrafo do que se tratava e segue o baile! Mas não, teve o lado ruim: jogo de bicho, bingo, cachoeiras e cascatas.

Focando e aproximando a paisagem, nesse bingo federal o governador Roberto Requião saiu com a cartela premiada. É o campeão da moralidade, mas só Deus enxerga neste momento algum Waldomiro estadual tramando uma vilania futura. Na calada da noite, algum ou alguns Waldomiros estaduais podem estar reivindicando percentagens diversas. De um a dez, ou mais. Para o Waldomiro estadual, um conselho: pense duas vezes. Pense no lado bom e no lado ruim. Se a trapaça envolver contratos e cifras milionárias, há grandes possibilidades de ser flagrado em delito e o crime passar despercebido pela maioria desinformada da opinião pública. É o lado bom. Mas se a tramóia ficar em modesto 1% e envolver fornecedores de carnes e aves para o restaurante do Palácio Iguaçu, por exemplo, com absoluta certeza os criminosos serão estigmatizados como ladrões de galinha. A chacota é o lado ruim.

A faca sobre o pescoço do ministro Zé Dirceu tem dois gumes. Se é que uma faca cravada pode ter um lado bom e um lado ruim, o lado ruim é que dói e vai doer. O lado bom dá chance de sobreviver, com a intervenção do marqueteiro Duda Mendonça. Eu sugiro Polyanna, a menina que via tudo pelo lado bom.

Até domingo, 29 de fevereiro de um ano bissexto que é múltiplo de 4 e termina em 4. O dia extra do ano.

continua após a publicidade

continua após a publicidade