Precisamos corrigir os argentinos. Los hermanos comemoraram esta semana os 20 anos de um dos jogos antológicos da Copa do Mundo, quando bateram a Inglaterra no México e Maradona inscreveu na história o gol com ?La mano de Dios?. A mão de Deus não foi condescendente com Maradona em 1986. ?La mano de Dios? abençoou os argentinos na Copa de 1978, em plena ditadura militar.

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Na última crônica fui justamente corrigido pelo cordial leitor Renato Karam: ?Não devo ser o primeiro a te corrigir, mas em 94 quem perdeu pênalti foi Roberto Baggio e não Paulo Rossi. Paulo Rossi foi nosso carrasco em 82 em plena Sarriá, lembra? Nem queira?.

Em resposta, digo que o carrasco nunca se afasta de nossas cabeças. É preciso reparar o erro e reconhecer que, depois do Google – o sítio de busca de informações da internet -, qualquer lapso vem da pressa, do desconhecimento ou da preguiça. E quando não constar no Google, uma bem fornida agenda telefônica também ajuda.

A pesquisa na internet facilitou a lida da informação. A pesquisa que demandava horas numa biblioteca, agora se completa num átimo. O publicitário Sérgio Mercer, pouco antes de ir, vislumbrava o que estava por perder: ?Essa internet vai mudar as nossas vidas?.

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Pois sim, mudou até aqueles intermináveis cismas de boteco.

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– Na Copa de 78 na Argentina, um jogador argentino tinha amigos desaparecidos na guerra suja. Em protesto, apostou mil dólares que passava a mão no saco e depois iria cumprimentar o ditador Videla. Dito e feito: o campeão ganhou mil dólares. Sei que o argentino era lateral esquerdo e tinha os cabelos encaracolados. Alguém lembra o nome dele?

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No sodalício do Bar Botafogo, a pergunta acima interrompeu a já caduca polêmica sobre o malfadado quadrado mágico de Carlos Alberto Parreira. Os circunstantes se entreolharam, puxaram pela memória, e nenhuma resposta vinha de inopino, quando um dos circunstantes matou a charada.

– Um momentinho que vou consultar no Google!

E foi. Levantou-se da cadeira, deu dois passos até o computador ao lado, dois cliques e estava lá no Google: o nome dele é Alberto Cesar Tarantini, lateral esquerdo, 1,82m e cabelos ruivos encaracolados.

O episódio de Tarantini com o ex-ditador Jorge Videla também estava registrado no Google, em inglês (depois devidamente traduzido pela querida amiga Peggy Paciornik): – Foi ao vestiário da Argentina que Videla se dirigiu depois da partida. O zagueiro Alberto Tarantini não se impressionou. Alguns amigos dele desapareceram na guerra suja. Ele disse então ao seu capitão Daniel Passarella: ?Aposto mil dólares com você que se o Videla vier me cumprimentar vou passar sabonete no saco e, quando ele chegar perto, vou apertar sua mão?. A aposta foi feita. ?Videla veio nos encontrar – relembra Tarantini – enquanto eu estava ensaboando meu saco e ele teve que me dar a mão, na frente dos fotógrafos. Aí ele fez uma cara!!! Foi tudo muito engraçado, mas estou muito orgulhoso do que fiz e não me arrependo. Eu absolutamente não concordava com o que eles estavam fazendo.?

Vinte e sete anos depois, em entrevista à Radio Diez, de Buenos Aires, Tarantini reconheceu que os integrantes da seleção nacional sabiam perfeitamente o que estava acontecendo no país, naquele cenário de seqüestros e assassinatos de opositores do regime militar.

– Pedi a Videla que ajudasse a três amigos que haviam sido seqüestrados. O que não sabia era das atrocidades que os militares estavam cometendo.

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Depois que instalaram internet no Bar Botafogo, aquele recinto etílico de intermináveis discussões nunca mais foi o mesmo. Todos ainda discutem, mas só o Google tem razão: a mão de Deus não era a de Maradona. Em verdade vos digo, ?La mano de Dios? foi aquela mão ensaboada de Tarantini.