Ítaloeclesiásticogauchesco (2)

A propósito do tema levantado pelo jornalista Aroldo Murá (“Afinal, o que é a pronúncia ítalo-eclesial?”), essa quilométrica palavra só existe no dicionário do sul do Brasil. No entender do falecido publicitário Sérgio Mercer, esse é idioma falado por quem é descendente de italiano, estudou no seminário e de alguma forma é ligado às tradições gauchescas. É o caso, por exemplo, do professor Eugênio Stefanello, professor da UFPR e doutor em economia agrícola.

Desde o segundo governo Ney Braga, Eugênio Stefanello e o ex-ministro Reinhold Stephanes sabem como ninguém o jeito de salvar a lavoura. Assessorados por uma brilhante equipe de técnicos na Secretaria de Agricultura, os dois formavam uma respeitada “dupla caipira”: Stephanes e Stefanello. O primeiro tinha a voz firme de apoio; o diretor-geral, a voz executiva. Nome obrigatório na agenda de qualquer jornalista bem informado e sempre com os números na ponta da língua, o sotaque ítaloclesiásticogauchesco do Stefanello é inconfundível. Atendia a todos em torno de uma grande mesa abarrotada de papéis e vários telefones. Um deles viva-voz, em linha direta com Stephanes. Normal seria receber, ao mesmo tempo, um jornalista, um produtor rural e um economista.

Com o sotaque ítaloeclesiásticogauchesco, Stefanello respondia ao jornalista: “É preciso considerar três pontos”. Sempre alinhavava o raciocínio com três pontos. “Um, o Paraná é o maior produtor de trigo do País, mas está com a faca dos argentinos no pescoço. Isto porque… um momento que preciso tirar uma dúvida com RRRénhôld” (assim era a pronúncia). Com viva-voz se comunicava com a sala ao lado: “RRRénhôld, você vai para Brasília hoje ou amanhã?” Todos escutavam: “Vou amanhã!”, respondia curto e seco o secretário.

Então Stefanello se virava para o economista : “Aquele relatório precisa estar na mesa do RRRénhôld ainda hoje”, e se dirigia ao produtor rural: “Você precisa arrumar para o RRénhôld aquela receita do “carneiro no buraco”. E voltava à entrevista: “Segundo ponto: os argentinos congelaram o preço da tonelagem em US$ 120, enquanto no Brasil o valor é de US$ 223. Resultado…. desculpa, mas preciso perguntar outra coisa para o RRénhôld”. Ia para o viva-voz: “RRRénhôld, você vai para o aeroporto com o teu carro ou com o carro da secretaria?”. Vinha a resposta: “Com o carro da secretaria, Stefanello!”.

“Muito bem… mas antes de voltar ao trigo, preciso dar um recado para um colega.” Discava para um ramal interno: “A bola eu levo. Você leva a carne, mas a linguicinha tem que ser do Bizinelli. Carvão tem no clube!”. Desligava e ia ao terceiro ponto com o jornalista: “O governo federal precisa tomar medidas urgentes para proteger nossos agricultores. Ou seja… um momento, preciso tirar outra dúvida: “RRénhôld, vai pegar o avião no Aeroporto do Bacacheri ou no Aeroporto Afonso Pena?”;

– Stefanello, quer saber de uma coisa? Vai plantar batata!

Já aposentado, pelo que se sabe Eugênio Stefanello nunca plantou batata. Mas sabe, como ninguém, quanto custa uma batata.

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