Interioranos

SENHOR DANTE MENDONÇA – A primeira página que leio quando chega o jornal é onde o senhor escreve (Em Tempo). Hoje (sexta-feira, 11 de julho), quando li “Quanto vale uma vela?”, notei que a impressão que vocês (da capital) têm dos interioranos é bem diferente da realidade que vivemos.

Nós, do interior, não moramos no mato e quando precisamos usar velas é para rezar por vocês que vivem no meio de um mato selvagem, cruel, violento e cheio de perigos. Moro aqui (Mandaguari 30 mil habitantes) desde que nasci (40 anos). Sou funcionária pública estadual há 20 anos. Trabalho em uma escola pública estadual onde não há violência, depredações ou paredes pichadas. Pelo contrário, tudo é extremamente limpo e bem conservado. Raramente falta energia ou água. Tenho dois filhos menores que transitam pelas ruas sem problemas. Jamais tive que levá-los à escola. Nunca fomos assaltados e nem somos inseguros com relação à seqüestros.

Se vocês acreditam que tudo isto significa morar no mato, para nós, interioranos, significa qualidade de vida. Somos felizes desta forma e jamais trocaria esta tranqüilidade por uma cidade grande. Conheço Engenheiro Beltrão, e assim como a maioria das cidades do interior, são excelentes para morar, trabalhar e educar os filhos. Temos parentes e amigos em Curitiba. Todos os anos eu e minha família vamos visitá-los com planos de permanecer uma semana. Não conseguimos ficar mais que dois dias. Quando eles vêm para cá para ficar dois dias, acabam ficando um mês.

(Janeti Garcia Souza)

Cara professora Janeti

Sua deliciosa carta foi lida por muitos aqui na Redação. E a reação foi unânime: bom seria se nos fosse possível exercer nossas profissões em Mandaguari, com as nossas crianças voando feito passarinhos, sem medo de ir e vir. Morar no mato, pode crer, é o sonho de vida da maioria aqui na capital. Alguns de nós até já realizaram essa proeza. O paulista do interior, Mussa José Assis, nosso editor-chefe, por exemplo, mora no mato há 24 anos. Em Colombo, 25 quilômetros do centro de Curitiba. E lá no mato criou seus seis filhos, um deles o também jornalista Chico Assis, agora morando num apartamento no bairro Água Verde, com vista para outro apartamento.

Oito entre dez jornalistas desta Redação, por força das circunstâncias, vieram – como se diz no interior – amarrar a petiça aqui na cidade grande. É gente do interior do Paraná, do interior de Santa Catarina, do interior do Rio Grande do Sul, do interior de São Paulo, gente do mato, enfim. Curitibanos da gema, são poucos. Mesmo assim, filhos ou netos de gente do interior que veio para a capital ganhar a vida. Na maioria, somos nós ontem os meninos que chegam hoje à periferia da cidade grande, sonhando com as oportunidades da cidade grande.

Eu mesmo, era um menino do mato. Nasci e me criei numa cidade que na época tinha não mais de 5 mil habitantes, onde meu filho Pedro está passando férias. As regulamentares e inesquecíveis férias no mato, privilégio dele desde tenra idade.

É coisa bem pernóstica alguém aqui de Curitiba tratar os de Mandaguari, digamos, como gente interiorana, do mato. Assim, o curitibano é então interiorano para o carioca, assim como o carioca deve ser considerado gente do mato para o cosmopolita novaiorquino.

Até sexta-feira, professora Janeti, e saudações interioranas. Com muito orgulho!

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