Injustiças

Um condenado sem provas – declarou Luiz Inácio – não há elementos que o envolvam em algo que justificasse sua cassação. ?É como se eu tivesse perdido a própria vida?, reconheceu José Dirceu, resumindo a injustiça.

Guarujá do Sul é uma pequena cidade do extremo oeste de Santa Catarina, localizada numa encruzilhada com a Argentina e Paraná, quase à vista das Cataratas do Iguaçu. É vizinha de Dionísio Cerqueira, famosa no folclore político catarinense. De tão longínqua, era o quinto dos infernos onde as oligarquias de Florianópolis depositavam seus desafetos políticos. A cada governo, levas de indesejáveis da nova administração eram removidas àquela região, então esquecida de Deus e dos homens.

Condenado de morte política, o deputado Zé Dirceu seria um desses confinados de Dionísio Cerqueira. O ex-guerrilheiro conhece muito bem esse tipo de exílio, desde Cruzeiro do Oeste, onde se escondeu das injustiças da ditadura.

Distante do Brasil oficial, na região de Guarujá do Sul vive uma gente em dúvida de suas origens. Seriam catarinenses, paranaenses, gaúchos ou argentinos? Aquele é um Brasil real, uma encruzilhada de todas as gentes que conhecem muito bem a injustiça.

Dona Loreci Schelavin, por exemplo. Proprietária de um pequeno laticínio em Guarujá do Sul, cresceu dona de seu próprio nariz e hoje agrega produtos de alta qualidade, como atestam suas vendas para todo o País. No início de 2004, dona Loreci foi a São Paulo receber de um grande atacadista uma dívida que vinha se alongando e afogando a empresa. Na falta de ?recursos contabilizados?, o atacadista propôs um escambo: em troca da dívida, dona Loreci levaria para Guarujá do Sul um carregamento de peixes congelados que estava estocado no frigorífico da empresa paulista. Sem outra opção, dona Loreci contratou um caminhão frigorífico e despachou o peixe para casa, lá nos confins do Brasil.

O injustiçado Zé Dirceu é manchete de jornal. Dona Loreci Schelavin foi manchete policial. Em maio de 2004, uma força-tarefa comandada pela Promotoria Pública e integrada pelas polícias Civil e Militar, além de fiscais da Secretaria Estadual da Fazenda, apreenderam no Lacticínios Guarujá, em Guarujá do Sul, 25 toneladas de filé de pescado congelado, estocadas em uma câmara frigorífica da empresa. O produto, avaliado em aproximadamente R$ 110 mil, era fruto de um assalto a caminhão ocorrido na região de Osasco (SP), quando o motorista ficou em poder dos assaltantes durante 24 horas.

Mesmo alegando ter recebido a carga em troca de dívidas, dona Loreci Schelavin recebeu voz de prisão e foi autuada em flagrante. Algemada na frente de seus dois filhos menores, enfiou algumas roupas numa maleta e foi conduzida à delegacia da comarca de São José do Cedro, distante cerca de 30 quilômetros do local da apreensão.

Dona Loreci amargou mais de um ano de prisão, onde comeu o queijo que o diabo azedou. Enquanto seus advogados tentavam provar que aquelas 25 toneladas de filé de peixe congelado eram produto de escambo, em troca de um calote recebido, a pequena empresária conheceu na cadeia uma outra pobre mulher.

Uma outra injustiçada pela vida, grávida e prestes a dar à luz o filho atrás das grades. Sem ter um teto, nem mesmo um parente para abrigar a criatura, dona Loreci adotou a criança ainda no cárcere. Fez justiça com os próprios braços e com os próprios seios.

A Justiça é cega, lerda, tarda, mas não falha. Dona Loreci Schelavin voltou para casa inocente, com outro inocente nos braços. Resultado de intrigas paroquianas, a operação desenvolvida pela força-tarefa foi montada a partir de uma injusta denúncia anônima.

O laticínio da empresária vai bem. O seu novo filho também – é como se ela tivesse ganho uma outra vida com a injustiça -, e não tem faltado leite para a criança nascida na prisão.

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