Não faz muito tempo venho reivindicando junto ao governador eleito, Roberto Requião, a subida honra de ser indicado como caseiro da Ilha das Cobras. Campanha neste sentido, registrada na coluna, tem encontrado notável respaldo no seio da sociedade e sincero apoio do eleitorado.
A paradisíaca Ilha das Cobras tem página cativa na história e capítulo à parte nos anais do folclore. Cercada de água, óleo e contêineres por todos os lados, entrou para o patrimônio do Estado após 10 de novembro de 1937, quando Getúlio Vargas anunciava o Estado Novo e impunha um período de ditadura na História do Brasil. Alegando a existência de um plano comunista para a tomada do poder, Getúlio fechou o Congresso Nacional e mandou construir na Ilha das Cobras um presídio para isolar a caterva comunista.
Contrariando os planos do caudilho gaúcho, o interventor Manoel Ribas, nomeado por Getúlio, teve a genial idéia de transformar a pretensa hospedaria de comunistas num reformatório para menores. Uma destinação aparentemente absurda, mas tinha razão de ser, para os costumes da época. Sem televisão, shopping ou computador, os pestinhas do Manoel Ribas realmente não tinham o que fazer e incomodavam horrores. Segundo os registros de então, os pais só conseguiam controlar os filhos com dois métodos: amarrando o piá no pé da mesa, ou ameaçando com uma exemplar temporada na Ilha das Cobras. De preferência no mês de dezembro, quando as butucas lá veraneiam. Com o advento dos filmes de bang-bang e do gibi, o reformatório restou abandonado por falta de freguesia.
A ilha só voltou a ser habitada muitos anos depois, quando Maneco Facão, já gagá, deixou de implicar com as crianças e um casal de noruegueses partiu dos fiordes gelados em busca de uma ilha paradisíaca nos mares do sul e o navio que os levava com destino a Florianópolis, fugindo de uma borrasca, bateu num contêiner perdido e naufragou no Canal da Galheta. O casal viveu na ilha por muitos e muitos anos, bem feliz e contente, constituiu família, sendo que uma das filhas, a mais esbelta e formosa, veio a contrair bodas com o grande poeta, escritor e teatrólogo Wilson Galvão do Rio Appa. Intelectual e aventureiro, hoje senhor todo-poderoso da Praia da Pinheira (SC), Appa chegou a viver na ilha por um bom tempo, mas essa é uma história que só o escritor Jamil Snege sabe contar com a devida vênia.
Sendo os sogros de Appa escorraçados pelas butucas, no primeiro governo de Ney Braga a Ilha das Cobras foi nomeada residência de verão do governo do Paraná. Após uma rústica reforma, a ilha conheceu poucos dos governadores seguintes. José Richa a freqüentava, para fins de pescaria e carteado. No primeiro governo de Roberto Requião, o casario recebeu uma boa guaribada, pois, como se sabe, o governador eleito prefere a companhia de mil butucas à presença de um só chato pedindo uma boquinha. Jaime Lerner, como não podia deixar de ser, encarregou uma força-tarefa de arquitetos para deixar o casario e o entorno com ares de resort baiano. Só faltando uma piscina. Mas este luxo, segundo consta, já está sendo providenciado pela equipe de transição, que cuida dos trâmites para o próximo verão.
Assim posto e assim sendo, com o advento de uma futura piscina no local, venho através desta renunciar à subida honra de ser indicado para caseiro da Ilha das Cobras. Caro governador Roberto Requião, essa piscina demove qualquer ambição ao cargo, pois, sinceramente, piscina dá muito trabalho. Se for pra trabalhar, é preferível uma ilha na Bahia. Sem piscina.
Até quarta-feira, quase verão.