Eis a questão: o polêmico projeto que pretende alterar a grafia de Foz do Iguaçu atravessou a fronteira, subiu o Rio Paraná, chegou às cavas do Iguaçu e desaguou no escritor Deonísio da Silva – colunista do Jornal do Brasil, revista Caras e Observatório da Imprensa. Autor do livro Avante, soldados: para trás, uma visão cáustica das realidades sociais da guerra do Paraguai, vencedor do Prêmio Internacional Casa de las Américas, doutor em Letras, atualmente dirigindo o Instituto da Palavra, da Universidade Estácio de Sá – RJ, Deonísio da Silva nos concedeu seu parecer e, como contribuição ao debate, publicamos o quanto se segue.

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A língua oficial do Brasil é a língua portuguesa, mas alguns nomes de localidades, como é o caso de Foz do Iguaçu, podem ser escritos de forma diferente, o que a gramática, não sendo caso de nome de lugar, pessoa, etc., não autoriza.

No caso de Foz de Iguaçu, em que estão presentes origens de duas línguas diferentes – o latim vulgar ?fox? e o latim culto ? faux?, designando, nos dois casos, garganta, passagem estreita; e o tupi ? gwa´su?, grande – surgem sutis complexidades, pois as línguas indígenas não tinham escrita. Assim, o primeiro registro foi Iguassu, consolidado, depois, como Iguaçu, por força de uma dessas reformas ortográficas que de tempos em tempos assolam a norma culta da língua portuguesa, sem jamais resolver a questão essencial: padronizar um sistema lógico e coerente para definir a forma de escrever as palavras.

Iguaçu ou Iguassu são, pois, denominações arbitrárias. Os dois lados em disputa, por motivos diferentes evidentemente, têm razão. Para isso existem os parlamentos: para decidirem em votação as questões controversas que dizem respeito a todos.

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Já tivemos polêmica, há algumas décadas, envolvendo o nome de um município gaúcho, que seria Erexim ou Erechim. Outro exemplo é o caso de Lages/Lajes. Ou de Renascença, que é escrito também Renascensa. Contudo, não há razão para que a língua portuguesa seja posta em submissão à internet e, neste caso, mude seu sistema de escrita para atender ao latim do império, o inglês, a língua hegemônica hoje no mundo. Como ficaria o francês, cheio de tantos acentos? E o árabe, o chinês, que tem outros sinais?

De todo modo é salutar que o município discuta tal questão e não outras. Devem ter sido resolvidos todos os graves problemas que afligem a população para que os vereadores, representantes do povo de Foz do Iguaçu, elegessem a mudança no modo de escrever o nome da cidade como prioridade em suas ações legislativas.

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Como estou morando no Rio de Janeiro, lembro que aqui a polêmica poderia ser ainda maior. Afinal, os descobridores deram tal nome à localidade pensando, enganados, que certo pedaço de mar fosse um rio…

No sistema de busca, Brasil vai aparecer como Brazil, nome pelo qual é conhecido internacionalmente, por força da hegemonia do inglês. Outro exemplo: Washington Luís, nome de rua, rodovia, localidade, é escrito também W. Luiz. Afinal, é Luís ou Luiz? Luísa ou Luíza?

Se é para revisar, revisemos tudo, começando por fazer uma Constituinte específica, que padronize a ortografia da língua portuguesa. Gastamos boa parte das escassas verbas para a educação ensinando um sistema ilógico de escrita a nossas crianças, reprovando a muitas delas por ousarem pensar que se eu digo ?exceção? , poderia escrever ?esesão? e não ? exceção?. Esta é, porém, uma questão controversa. Mudança, seja qual for, dá trabalho. O presidente Lula utilizou na primeira linha de vários de seus primeiros pronunciamentos na caminhada para a presidência da República – na carta aos brasileiros, na proposta de candidadura, na eleição, na posse – as palavras ?mudar? e ? mudança?. E o que mais tem feito é dar continuidade ao governo do antecessor, com o agravante de ter azeitado a máquina com o óleo fedorento da corrupção, institucionalizada como prática política. (Deonísio da Silva)