(De Teresina – Piauí) Desde o dia em que foi inaugurada a velha estação do Guadalupe, onde hoje os maledicentes julgam ser a “zona portuária de Curitiba”, já se dizia que a capital paranaense tem quatro estações: verão, inverno, rodoviária e ferroviária. Sendo que o verão cai num dia qualquer de janeiro, sempre numa segunda-feira.
Aqui em Teresina, sustentam a tese de que o Piauí tem duas estações: o verão e a estação de trem, onde os do agreste migram para o Sul Maravilha.
A primeira impressão que se tem de Teresina é que estamos desembarcando na boca de um dragão, com um bafo de 80 graus, quando o termômetro marca “apenas” 40. Uma temperatura que não faz o teresinense perder o bom humor:
– Aqui é a cozinha do inferno. Daí que a gente come o pão que o diabo amassou.
Nestas condições climáticas, rir é o melhor refresco. Todos os piauienses são bravos, mas nem todos são santos. Quando um deles morreu e chegou no inferno, este foi o seu primeiro pedido:
– Alguém aí tem um casaco para me emprestar?
Teresina é a única capital do Nordeste distante 400 quilômetros dos verdes mares e com um litoral que consegue ser ainda menor que o nosso. É um tiquinho de praia, comparando com a gigantesca vizinhança. Na caricatura, o Piauí é o Estado mais pobre da federação. Mas os piauienses têm auto-estima, não esmorecem e respondem com uma frase na ponta da língua:
– O Piauí é uma piada, mas de muito bom gosto.
Bom gosto que toma conta das ruas de Teresina há 22 anos, desde quando foi inaugurado o primeiro Salão de Humor do Piauí. Sempre em novembro, a cidade que se espalha em torno do delta dos rios Poty e Parnaíba – este fazendo divisa com o Maranhão – recebe os melhores cartunistas e artistas gráficos do mundo, tornando-se o maior salão do gênero do Brasil, um dos maiores do mundo.
Neste ano, o Salão teve como tema o racismo e premiou várias categorias de humor: a caricatura, o cartum e a charge, com exposições paralelas nas áreas centrais, praças e parques, edifícios históricos, aeroporto e até no palácio de governo, a poucos metros da sala do governador. O Paraná foi o Estado homenageado, com a mostra 10enhistas de Humor do Paraná (Bennet, César Marchesini, Dante, Marcos Jacobsen, Miran, Paixão, Pryscila, Rettamozo, Solda e Tiago Recchia). Aqui presentes apenas quatro dos dez mosqueteiros – Solda, Tiago, Marcos e Dante – que subiram ao palco na noite da última segunda-feira, onde foram recebidos pelo prefeito e governador, sob os aplausos de vários outros cartunistas brasileiros e estrangeiros.
O Salão de Humor do Piauí é um dos maiores do mundo porque não se contenta com pouco, e a auto-estima dos piauienses não deixa por menos. É notável a participação popular nas várias oficinas, palestras, shows, apresentações teatrais, debates, mesas-redondas e lançamentos de livros. Entre tantos outros nomes importantes convidados para as múltiplas atividades, destaca-se a escritora Sonia Luyten, crítica e historiadora de histórias em quadrinhos, internacionalmente respeitada, que em um dos seus livros, editado também no Japão, faz uma importante análise do trabalho do nosso Cláudio Seto, um dos pioneiros da moderna história em quadrinhos no Brasil. Daqui desta coluna, Sonia Luyten pede para mandar um abraço ao Seto, com admiração e carinho.
Instalados nas praças e calçadões, os organizadores desenharam túneis de plástico e ferro desmontáveis, fazendo com que arte e cultura se espalhem pela área urbana da terra de Torquato Neto. Para marcar mais ainda o diferencial, escolas públicas e particulares, ao lado das universidades, levam alunos e professores a participar, motivados também por toda a imprensa piauiense, sem distinção de interesses políticos e promocionais. Ombro a ombro, o poder público e grupos privados fazem crescer a auto-estima deste Estado, que, para os olhos de outros irmãos da Federação, é uma piada. Mas uma piada de muito bom gosto.
Até sexta-feira; de Natal, no Rio Grande do Norte, que esse mar também é meu.