História revista e ampliada

Não deu. O sonho acabou. Agora só tem cuque e as bananas dos adversários. O Furacão não foi derrotado. Foi humilhado. E se nos resta um consolo, é fazer do limão uma limonada.

Como se não bastasse a desonrosa debacle, ainda nos amofinam pela Internet: a noite é mesmo uma criança. No happy-hour, o primeiro brinde atleticano foi um champanhe ao rubro-negro Campeão das Américas. Na saideira, um gole de cerveja quente em consolo ao lanterna do Campeonato Brasileiro. E no dia seguinte, a ressaca provocada pelos adversários: ?Excursão do Atlético – Praça do Japão – Domingo -passagem a 1 real?.

Ao abrir o jornal, este anúncio nas páginas dos classificados, para gáudio da outra arquibancada:

tokio170705.jpgA derrota não tem genitores, é orfã de pai e mãe e nem os vizinhos cumprimentam. Mas, no caso da humilhante derrota atleticana, há quem veja paternidade no meia Fabrício, que num só petardo expulsou metade dos atleticanos que foram assistir à decisão continental no telão da Baixada. Antes que se faça uma análise do DNA da frustração, restam dúvidas quanto ao Fabrício ser o pai desnaturado. Se existe um culpado, deve ter sido aquela camisa verde que, por distração, vesti por baixo do casaco vermelho na fatídica noite de quinta-feira. Um pênalti perdido pode mudar os rumos de uma partida, mas não chega a ser uma tragédia. Agora, uma camisa verde vestida de mau jeito tem conseqüências inimagináveis. Qualquer torcedor que se preze há de concordar.

As boas regras da crônica ensinam que é bom passar ao largo de assunto envolvendo futebol e, principalmente, religião. Estou escrevendo acerca desse espinhoso tema por dois motivos: primeiro, exorcizar aquela humilhação. Segundo, as boas regras da crônica também ensinam que não se deve fugir de assunto momentoso. Especialmente quando se está sem assunto, condenados que estamos a bater no cachorro morto do Mensalão. E como me alertou o cartunista Tiago Recchia, pelo telefone, ?a melhor forma de esquecer é lembrar?.

Ou fazer do limão uma limonada. Por exemplo: aos coxas, lembro que ainda está nas livrarias e bancas de revistas o meu livro Piadas de sacanear atleticano (Para alegria de coxa-branca).

Na abertura, escrevi o outro lado da história do Atlético, contada por um coxa roxo: ?Era uma vez um time que nasceu no hospício e morreu na praia?.

E segue o texto: ?O Clube Atlético Paranaense foi fundado no dia 28 de agosto de 1968. A pedra fundamental foi depositada pelo atacante rubro-negro Zé Roberto, no início da cerimônia. E quem despejou água no chope da festa atleticana foi o alviverde Paulo Vecchio.?

?Os atleticanos precisavam desesperadamente de uma vitória para forçar uma terceira partida na decisão do campeonato paranaense daquele ano. Para o Glorioso, bastava um simples empate. Disposto a tudo, o Atlético fez um a zero, com Zé Roberto. No último segundo, nos estertores da peleja, porém -e com o Atlético sempre tem um porém – o lateral Nilo levantou a bola com precisão cirúrgica para o atacante Paulo Vecchio que acabara de entrar. A cabeçada mortal empatou o jogo e deu o pontapé inicial para mais um velório do time que nasceu morto e morreu cem números de outras vezes. Sempre na praia, como aconteceu em dezembro de 2004, quando os bagres da baixada entregaram de mão beijada o campeonato brasileiro para a baleia do Santos.?

***

A próxima edição do livreto ?de sacanear? será revista e ampliada com mais esta morte na praia do Furacão da Baixada. Enquanto isso, estimados torcedores do Coxa, passem na banca e sejam generosos com este cronista que nada mais pretende senão fazer do limão uma limonada.

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