História para pescador

Expulsos das águas da Baía de Paranaguá, os pescadores vão se tornar guias turísticos. Eles estão sendo selecionados e treinados para o programa Pescaria Turística, que vai oferecer aos nossos caiçaras uma nova fonte de renda, usurpada que foi pelo óleo que turvou o mar e deixou a coisa preta para quem precisa defender os peixinhos das crianças.

Transformar pescador em guia turístico é uma temeridade. Porque, quando pescador desanda a contar histórias, a história vira estória e o peixe não tem mais tamanho. Não é história para pescador, essa que vamos contar, que é a história dos primeiros pescadores do Paraná. Uma saga para fazer parte do currículo escolar ministrado aos novos guias turísticos do litoral.

A história da pesca no Paraná teve seu início no longínquo ano de 1541, quando Don Alvar Nuñes Cabeza de Vaca foi nomeado ministro da pesca del Rey de España, uma função parecida com a do atual ministro da pesca brasileiro, José Fritsh, um catarina criador de porco que o Lula botou pra criar peixe. Com o Cabeza de Vaca sucedeu o mesmo: nomeado Adelantado del Rey de España no México, era exímio caçador de aztecas e maias e não entendia bulhufas de peixes, crustáceos e ostras coisas, quando El Rey ouviu falar de um remoto rio do hemisfério Sul, onde os peixes eram dourados, com escamas de ouro 21 quilates. Com os aztecas e maias já em extinção, e com todas suas caravelas ocupadas em descobrir o caminho das Índias e de Santiago de Compostela, Sua Majestade el Rey mandou o desocupado Cabeza de Vaca pescar dourados num tal de Rio Paranazão.

Cabeza de Vaca partiu então da Ilha de Cuba com um carregamento de rum e charutos, para trocar por baianos, na época muito usados como iscas de tubarão. No caminho, a esquadra espanhola ancorou na Baía de Guanabara, onde pescaram no curico algumas sereias deliciosas. Mas não tão deliciosas quanto as sereias que davam nos mares mais ao sul, diziam os nativos cariocas. Cabeza de Vaca, tarado por sereias, levantou âncora e se jogou para Floripa. Ao chegar na Ilha de Santa Catarina, soube que Buenos Aires fora arrasada pelos torcedores do Boca Juniors e que os sobreviventes tinham fundado uma nova cidade, Asunción, nas margens do Rio Paraguai, onde estavam começando a fabricar uma bebida com o nome de uísque. Soube mais: existia um caminho por terra, o Peabiru, usado pelos índios, que poderia levá-lo não só a Asunción, como também ao rio onde abundavam dourados com escamas de 21 quilates.

Com 250 homens, uma tribo de índios carijó e 26 cavalos, Cabeza de Vaca subiu o litoral de Santa Catarina, passou por Balneário Camboriú, onde a metade da indiarada resolveu passar o verão, até alcançar Joinville. Nesta cidade, a caravana subiu de bicicleta a Serra de Dona Francisca, passou por São Bento, Piên, Agudos do Sul, Quitandinha, Mandirituba, até chegar em Curitiba, onde foram recebidos por um tal de Don Nélson Comel del Bigorrilho, um grande pescador que garantiu ser verdadeira a história dos dourados com escamas de 21 quilates.

Foram meses de viagem. Do Bigorrilho, a expedição seguiu em direção aos rios Ivaí e Piquiri, não sem antes pescar uns lambaris em Tibagi, cruzou-os e chegou ao Rio Iguaçu. E foi subindo… e foi subindo… e foi subindo o Rio Iguaçu, até vislumbrar a maior maravilha do mundo: as cataratas do Iguaçu. Assim, Don Alvar Cabeza de Vaca foi o primeiro homem branco a pisar em Foz do Iguaçu, que na época era três vezes maior e só conhecida por contrabandistas paraguaios, índios e turistas japoneses.

E os dourados com escamas de 21 quilates? Foi aí que Cabeza de Vaca soube da verdade nua e crua: era tudo estória de um pescador chamado Don Nélson Comel del Bigorrilho. Decepcionado, o Adelantado del Rey de España se mandou pra Asunción del Paraguay, onde descobriu a harpa, fundou um cassino e conheceu um outro pescador europeu que tinha caído na mesma lorota daquele tal de Don Nélson Comel del Bigorrilho.

Esse outro pescador era francês, chamava-se Auguste de Saint-Hilaire e foi ele o primeiro homem branco a pescar na Baía de Paranaguá.

Mas essa é uma outra história, e até quarta-feira.

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