Não fosse uma arbitragem cega e um ataque míope que o levaram a perder de 2×1, o Paraná Clube sairia do Maracanã com uma outra goleada. Placar moral de sábado passado: 4×1 para o tricolor. O mesmo da goleada de outubro de 1996, como conta Ernani Buchmann no livro O ponta perna de pau, que já está nas livrarias. Crônicas curtas e histórias saborosas, Ernani é craque.
?Corria o campeonato brasileiro de 1996. E quando digo corria quero dizer que os líderes iam a toda velocidade, enquanto o Paraná Clube andava a passos de lesma. Tínhamos estreado em Recife, ganhando do Sport, para depois nos transformarmos na alegria dos adversários. No máximo, um empate ou outro. Antônio Lopes, o técnico tetracampeão, caiu aolevarmos uma goleada de 4×0 do Vitória, em Salvador. Foi substituído por Mário Juliatto, que durou três jogos. Outra goleada, agora de 4×1 para o Atlético, deu fim ao seu emprego. Do camarote do Pinheirão, pelo celular, contratamos Rubens Minelli.
O jogo seguinte seria em Bragança Paulista. Àquela altura, estávamos em antepenúltimo lugar, com seis pontos. Atrás, só Bragantino e Criciúma, com dois ou três.
Minelli estreou perdendo por 1×0, com o Bragantino indo a cinco pontos. A pressão ficou maior. No dia seguinte, fizemos uma reunião na Vila Olímpica. O velho treinador disse que a situação estava muito ruim. O time era fraco. E que se ele soubesse o quanto era fraco, não teria aceitado a tarefa. Precisávamos de reforços.
Queria jogadores de qualidade. Na falta de dinheiro para grandes contratações, disse que aceitava algumas novidades para motivar time e torcida. O problema era achar jogadores com passe livre e salário baixo. Nossa sorte era que, na comissão técnica, tínhamos Paquito e sua caderneta mágica.
Foi um trabalho de garimpagem. Liga para um, liga para outro, trouxemos Aléssio, de Londrina, e Silva, de São José dos Campos. Em Barra do Garças, disputando o campeonato brasileiro da terceira divisão, Paquito descobriu Reginaldo Negão, que havia sido jogador do Batel de Guarapuava. E em Feira de Santana foi encontrado o meia Osmar, campeão brasileiro pelo Bahia em 1988. Estava então com 35 anos, ainda que Minelli pedisse que ele se anunciasse estar completando 30.
Jogaríamos na quarta-feira na Vila Capanema com o Cruzeiro, líder do campeonato com 22 pontos. O Paraná com os seus seis. Foi o grande jogo daquela passagem de Carlos Alberto Dias pelo tricolor. O time segurou os mineiros no primeiro tempo e, no segundo, Dias resolveu embora quase tenha complicado. Sofreu um pênalti que ele mesmo converteu. Dois minutos depois, agrediu um adversário e foi expulso. No final, o estreante Aléssio aproveitou um contra-ataque e garantiu a vitória.
O problema é que o Bragantino e Criciúma também venceram na rodada. Continuávamos com dois nos calcanhares. Pior: no domingo seguinte iríamos enfrentar o Flamengo no Maracanã. Reginaldo chegou na quinta-feira. Treinou entre os titulares e foi escalado para jogar, juntamente com Osmar.
O então uniforme número 2 do Paraná era branco, com losangos azuis e vermelhos nas mangas. De tão feio, não conseguiu sobreviver ao final do ano. Mas naquele 13 de outubro de 1996 foi com ele que o time entrou em campo. As rádios desdenhavam da simploriedade paranista. Parece time de terceira divisão, foi uma das gracinhas que ouvi. A torcida preparava-se para uma goleada.
E ela veio. Mas não com gols de Fábio Baiano, Mancuso ou Marques. É verdade que Bebeto marcou um, o único rubro-negro. O Paraná é que foi enfiando um em cima do outro no goleiro Zé Carlos. Paulo Miranda fez o primeiro, Silva o segundo. Osmar marcou o terceiro e Ricardinho fechou a goleada.
O Maracanã ficou em silêncio, antes da torcida pedir a cabeça dos jogadores, do técnico Joel Santana, do presidente Kleber Leite. E foi o próprio presidente quem me ligou depois do jogo:
Meu querido, onde é que você descobriu esses neguinhos endemoniados?
Naquela tarde, no Rio de Janeiro, os neguinhos endemoniados do Paraná deram o segundo passo na arrancada que nos levou a terminar o campeonato em 16.º lugar, à frente de Vasco, Santos, Botafogo. Fluminense e Bragantino foram rebaixados mas depois não foram, lembram??
Ernani Buchmann