O anúncio foi publicado discretamente nesta segunda-feira: “Produtora de cinema procura quem tenha mantido contato pessoal com Francis Ford Coppola em Curitiba, para participar de um documentário sobre a histórica estada do cineasta no Paraná”.

Ontem, uma longa fila se formou na porta do endereço indicado para contatos. Eram curitibanos de todas as estrações. Nem todos portavam um autógrafo comprobatório, ou uma foto ao lado do “poderoso chefão”, mas todos tinham uma história para contar.

PRIMEIRO CURITIBANO a recepcionar Francis Ford Coppola foi um motorista de taxi, no Aeroporto Afonso Pena. No percurso até o hotel, o famoso diretor pediu pra conhecer uma favela curitibana:

– Levei pra conhecer a Vila Pinto, que fica no caminho do hotel. Sinceramente, não se entusiasmou. A Vila Pinto não é mais uma favela que se preze. Viu lá uns barracos, mas todos com cortinas na janela, flores no quintal, até carro do ano tinham na garagem. Então, pra não decepcionar, levei o homem pra conhecer a ocupação dos sem-teto no prédio do Banestado na Rua das Flores. Aí, sim: achou aquilo coisa de cinema!

UM GARÇOM não só tinha um depoimento, como também exibia faceiro um guardanapo autografado, manchado de caldo, relíquia da feijoada de sábado num restaurante de hotel:

– O italiano é bom de garfo e empatou com o Jaime Lerner, que também estava de regime. Os dois começaram com caipirinhas de cachaça e travessas de torresminho, só colesterol in natura. Depois pediram cervejas e a feijoada. Orelha de porco nem tanto, mas o que o seu Coppola gostou mesmo foi das piadas de polaco do Lerner. Como eles falavam em inglês, só entendi uma palavra: bitiful! Mas o americano me surpreendeu: pensei que ele fosse fechar a feijoada com um prato de macarrão e uma bisnaga de catchup.

NA UNIVERSIDADE, o estudante de cinema assistiu à palestra do grande diretor e confessou que, de inglês, fala inglês de roqueiro. Isto é, pouco mais que nada.

– Pelo que eu entendi, ele é proprietário de uma vinícola na Califórnia. Tipo assim, ele mesmo faz o vinho que bebe. E disse que os roteiristas do cinema brasileiro são como certos vinhos novos: quanto mais velhos, piores.

No final da palestra, entreguei a ele um meu roteiro inédito: Poderoso Chefão – O retorno. É a história de um clone de Dom Corleone que vem morar aqui em Santa Felicidade e se dá bem: monta um pequeno restaurante, abre uma casa de câmbio, depois uma empreiteira, entra no negócio de bingos e, com os filhos brasileiros, torna-se o maior acionista de uma gigantesca concessionária de pedágio. Ele ficou impressionado.

NO CENTRO DA CIDADE, um contabilista foi abordado pelo diretor de Apocalypse Now e contou como foi:

– Fim de expediente, eu estava andando em direção ao terminal, quando ele me abordou. É um senhor muito fino e solicitou se podia me acompanhar até minha residência, na Água Verde. Tomamos o ônibus expresso e ele fez questão de conhecer minha família. Perguntou de tudo: do meu time de futebol, da nossa renda familiar e do meu lazer nos fins de semana. Aí contei que gostava de lavar o carro, na calçada de casa. Não é que no domingo ele voltou, só pra ajudar a lavar a minha Parati? Ninguém acredita: ainda me convidou para fazer o papel de um curitibano no seu próximo filme – Megalópolis – e, juro, me pediu um autógrafo!

O DONO DE CAFÉ, na Boca Maldita, apresentou um álbum de fotografias: Coppola bebendo Gengibirra Cini, Coppola lendo a Tribuna do Paraná, Coppola com a camisa do Atlético, Coppola comendo paçoquinha, Coppola na garupa do Oil Man. Sobre a ilustre visita, confessou que aconteceu com o diretor o mesmo que ocorreu com o ator Anthony Quinn, quando este passou uma temporada filmando em Curitiba:

– No terceiro dia, a turma perde o respeito e pergunta: “Quando esse chato volta pra casa?”

Até sexta-feira, Francis!

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