O bem-sucedido político e empresário, deveras conhecido por sua elegância e pontualidade, reunia todas as sextas-feiras os amigos para uma animada noite de libações alcoólicas num hotel central da cidade.
Certa feita, os bons companheiros já estavam na metade do primeiro uísque doze anos e nada do pontualíssimo conviva aparecer. Todos intrigados com inimaginável atraso, já especulavam infortúnios nos negócios ou na política, quando adentra ao fino bar do hotel o motorista do finíssimo ausente.
– Senhores, o doutor sente sinceramente e transmite desculpas pela demora, mas pede para avisar que, depois de muito tempo, reencontrou no aeroporto uma jovem e querida amiga, chegando do Rio de Janeiro. Assim, se o doutor puder, dentro de uma hora estará com os senhores. Se não puder, dentro de cinco minutos. Senhores, muito obrigado pela compreensão.
O outro jeitinho brasileiro – Quando traídos, os brasileiros reagem conforme a cultura, os costumes locais e o grau de desenvolvimento social. Até o clima explica reações tão diversas nas várias regiões do Brasil.
O Paulista – É traído e vai fazer terapia. Afinal, o problema deve ser com ele.
O carioca – Encontra a mulher com o outro na cama, junta-se a eles e se diverte.
O Goiano – Entra em depressão, pega a viola e vai para a rua à procura de outro infeliz pra montar mais uma dupla sertaneja.
O baiano– Cansado, chega em casa e encontra a rede ocupada. Vai sentar na sala até que tudo fique mais calmo, pra ele poder dormir um pouco.
O Brasiliense – Sempre que chega no apartamento funcional e encontra a esposa fazendo um lindo discurso de amor para um outro correligionário, de raiva vai para o Congresso e inventa mais um imposto. Ou aumenta a taxa de juro.
O Curitibano – Quando encontra um forasteiro ocupando o seu cobertor de lã de carneiro preferido, não diz absolutamente nada. Como se sabe, curitibano não fala com estranhos.
Patrimônio histórico
Na semana passada chorei pitangas aqui na coluna pelo picadinho. Hoje injustamente exilado, como se fosse uma maionese acometida de salmonela, esta menina perigosa que volta e meia cai em desgraça. Como bem acrescentou Célio Heitor Guimarães, “restaure-se a fama perdida do picadinho de carne”.
Dias depois, o colunista do jornal O Globo Joaquim Ferreira dos Santos, também tocado por estes novos tempos de tomate seco, rúcula, alcaparras e leite condensado, queixava-se de mais um item da gastronomia brasileira deletado da nossa mesa:
“É o tipo de assunto que deveria sair na manchete do jornal, mas, compreende-se ? tantas guerras a serem noticiadas, tantos dólares que sobem e baixam. Foi só quando eu me sentei, domingo, à mesa do Bismarque, ícone da baixa gastronomia, em Botafogo, que se me quedou a informação. Procurei nas sugestões do chefe. Nada. Recorri aos itens das páginas internas. Muito menos. Faltava alguma coisa no cardápio. Ei, seu garçom, cadê a rabada que estava aqui?!
Eu não sei qual a autoridade responsável pelo assunto, se reclamo ao prefeito ou queixo-me ao bispo. A notícia, para quem tinha se acostumado ao ritual há tempos, era devastadora. Já não faz parte do cardápio dominical do Bismarque o suculento trinômio rabada-batata-agrião. Nesses tempos de tomate seco e rúcula, pode ser que a maioria dê de ombros. Mas evidentemente não estamos falando de gastronomia. A matéria aqui é de Patrimônio Histórico”.
Até quarta-feira e como já se disse, essa viagem do Lula podia ser bem mais proveitosa. Como se sabe, Bush não fala português.