Foi na quarta-feira, 30 de julho de 2003. Da última fábrica, no México, saiu o último Fusca. Décadas antes da globalização, quando a indústria automobilística ainda engatinhava no Brasil, o Fusca era o primeiro carro da família, o presente do pai para o filho ou filha que se formava, o preferido das auto-escolas. Fácil de dirigir e de estacionar, econômico no desempenho e no preço, era o veículo mais visto nas ruas e estradas. Virou paixão nacional. E tem até hoje um enorme fã-clube. Quem tem um Fusca não vende, não dá, não troca e não empresta por livre vontade.
Agora, que o Fusca entra definitivamente para o terreno da memória (Assim como onde tem um Fusca tem outro e onde tem uma história de Fusca tem outra), vale reproduzir aqui uma história anotada à mão, há alguns anos, por dona Luizinha Grein do Nascimento, protagonista, com o doutor Ney Regattieri do Nascimento, de inúmeras aventuras com os Fuscas da família, primeiro um 1959, depois um 1962 e por último um 1961, herdado, que ainda existe e é todo original, justamente o objeto da narrativa que segue:
“Ah! Sim! É como se fosse uma pessoa da família. E fala! Só que, lembrando Bilac, é preciso amar para entendê-lo. Porque ele sabe falar com a gente, o nosso Fusca AB 2248, 1961.
Totalmente integrado à vida de todos nós, é o preferido entre outros. Intimamente ligado às viagens ao sítio, é nelas que ele se tem revelado valoroso, arrojado, e quantas vezes, heróico. Se vocês conhecessem a estrada que ele percorre para chegar ao Ribeirão… Ribeirão Bonito, herança de um pai ecológico por excelência, amigo das árvores, da terra, das nascentes. Pudera! Terceiro franciscano, tinha a lhe inspirar o amor pela natureza a figura singular de Chico, o de Assis, padroeiro da Irmandade…
De Curitiba, após 100 km de asfalto pela Rodovia do Café há uma estrada de barro, 13 km, que em dias de chuva torna-se impraticável. Foi nesse trecho que vivemos uma aventura inesquecível, meu marido, eu e o Fusca.
Sábado à tarde. Tempo instável, mas mesmo assim resolvemos fazer a nossa viagem tão querida até o Ribeirão, nosso sítio. Aprontos prontos, partimos.
Vocês vão achar que é fantasia, mas falou em Ribeirão o Fusca se assanha, movimenta-se, agita-se, seus faróis brilham como olhinhos de criança antevendo um prazer.
Alcançamos o atalho antes da chuva, mas mal o adentramos o céu escureceu e pingos esparsos, enormes, começaram a cair e cada vez mais fortes e contínuos, até se transformarem em látegos ininterruptos e intensos. Voltar? Não! Coragem, Fusquinha companheiro, vamos em frente!
Mas a chuva não cessava. A estrada em solais acumulava água nas beiras. Revolto, o barro central fazia as rodas patinarem. Escurecia mais.
Outra vez vocês vão achar que é fantasia, mas ouvimos o ranger cansado do motor dizer “não posso mais, vou parar”. E parou!
Noite caindo, chuva caindo e caindo também, junto ao barranco da estrada, o nosso Fusca. E nós dentro dele, absolutamente sem recursos para ajudá-lo, estrada deserta, auxílio nenhum, ninguém…
– Vamos pernoitar aqui?
– É o jeito.
Acomodamo-nos como foi possível. Escuridão total. Alguém? Onde? Quem diz! Ô noite longa… Amanhecia.
– Bom dia, amigão. Vamos sair daqui que a chuva passou. Você está firme? Nós estamos meio doídos, mas tudo bem (acontece que somos avós…).
Buzina. Um caboclo chega logo, devagar, meio desconfiado. Dá aquela mão forte e eis o nosso herói na estrada outra vez, livre, cara suja mas coração alegre. Dali ao portão de chegada foi um regozijo só. Nós nos demos as mãos e abraçamos nosso Fusca. Só não o beijamos porque ele estava com a carinha toda suja de barro!
Trocá-lo? Por nada deste mundo. Só mesmo por um lugar no céu…”
Até quarta-feira, dona Luizinha: minha querida sogra.