529,464 – Que bicho seria esse? Não sendo corretor zoológico, não sei se isso é cobra, burro ou borboleta. Sei que é a numeração impressa na placa do último Fusca produzido no México, neste 30 de julho de 2003. Uma data de luto para as viúvas do Fusca, milhares e milhares que ainda o dirigem em suas memórias de vida.
Quem não há de ter uma história para contar sobre o Fusca? E quem não tem a sua, há de ter a história contada pelo pai, o avô. Também tenho a minha, mas é uma história banal. A mais banal delas: o meu primeiro carro foi um Fusca creme, ano 84, que a concessionária me entregou em casa, num reboque. Motorista tardio, tive o meu Fuscão sem mesmo saber dirigir. Sem habilitação, passei algumas boas semanas “pilotando” um fusca parado na garagem, saboreando o doce aroma do carro zero. Foi bom. Ruim foi dirigir de verdade. Na primeira incursão, terminei tomando cafezinho na oficina, contabilizando o prejuízo de uma colisão com… outro Fusca!
Sim, pois onde tem um Fusca tem outro. Assim prova em fotos o paulista Luis Moraes, autor desta estranha teoria do Fusca: “Onde tem um Fusca tem outro”.
Ele conta: “Depois que descobri isso, andar na rua nunca mais foi a mesma experiência. Pessoas com quem compartilhei minha teoria trataram-na com desdém e incredulidade, no princípio, mas aos poucos cederam à força dos Fuscas e alguns, mais obcecados, quase enlouqueceram. Outros simplesmente aprenderam a se divertir com isso. Às vezes eu os tomo como sinais, confirmações de algum pensamento, como num oráculo urbano e pessoal(…)”
Provando a tese, Moraes mostra no site www.fuscas.com uma coleção de fotos onde um Fusca sempre está acompanhado de outro.
Quem não tem histórias banais sobre o Fusca é o gaúcho Alexander Gromow. Ele escreveu um quase definitivo livro sobre o assunto: Eu amo Fusca. Especialista, reuniu dados que serviram como base para o projeto de lei do Dia Municipal do Fusca. Deu entrevistas para Jô Soares, CNN, TV japonesa, Deutsche Welle e explicou porque o Fusca entrou dessa forma na vida do brasileiro. O que ele tem de tão especial e cativante.
– “O Fusca conquistou a ?amizade? e a admiração de todos, não só por ser confiável, muito menos por sua beleza, que é duvidosa, mas por seu indiscutível carisma. O Fusca com suas formas arredondadas, com a sua “cara” amiga, logo foi adotado por todos e passou a fazer parte das famílias; a grande maioria deles recebeu um apelido e foi tratado como um ser vivo. Loucura? Talvez sim, mas uma loucura que ocorreu aqui no Brasil também e que se repetiu com a maioria dos mais de 22 milhões de Fuscas vendidos no mundo inteiro! Não há uma definição clara para este fenômeno, mas é indiscutível que ele existe.”
O carro do povo nasceu no início da década de 30, pelas mãos de Ferdinand Porsche, que desenvolveu o projeto na sua própria garagem, em Stuttgart, Alemanha. Mas foi no término da Segunda Guerra Mundial que o Fusca ressurgiu das cinzas, feito fênix. A fábrica de Hannover estava quase inteiramente destruída. Seus projetistas, ninguém sabia por onde andavam. E de suas versões militares ninguém mais precisaria. Por pouco foi o fim do Volkswagen. Até que o major inglês Ivan Hirst redescobriu o Fusquinha entre os escombros da antiga fábrica e resolveu adotá-lo, retomando sua fabricação.
E sabe quem era esse major Ivan Hirst? Era um Itamar Franco da época, sem topete.
Até domingo, lembrando: Juarez Machado está em Curitiba.