O apagão do alemão tratava-se de um curto-circuito na fiação. Um problema de dentro dos neurônios – as células cerebrais -, os quais apareciam atrofiados em vários lugares do cérebro, e cheios de placas estranhas e fibras retorcidas, enroscadas umas nas outras. Desde então, esse tipo de degeneração nos neurônios ficou conhecido como placas senis, característica fundamental da doença de Alzheimer.
?Tendência não é destino?, dizia o microbiologista francês René Dubos. Fuja do alemão e faça neuróbica, a ginástica para o cérebro, dizem os especialistas. A primeira delas: trocar de mão para escovar os dentes é bom para o cérebro. O gesto de trocar de mão, contrariando a rotina e obrigando à estimulação do cérebro, é um jeito de melhorar a concentração, treinar a criatividade e a inteligência. A neurociência revelou que o cérebro tem a capacidade extraordinária de crescer e mudar o padrão de suas conexões.
Não está no caderninho da neuróbica, mas outros dois exercícios matinais também são importantes: desatar e fazer o nó. Primeiro, sapatos sem cadarços ativam a preguiça mental. Tenha o hábito de fazer os nós nos cadarços. Qualquer que seja o pacote, tenha paciência: desate o nó! Haja paciência para desatar um nó – e o Requião que o diga -, mas bem por isso Nossa Senhora Desatadora de Nós é a padroeira dos que fogem do alemão.
Vide bula: cerca de 80% do nosso dia-a-dia é ocupado por rotinas que, apesar de terem a vantagem de reduzir o esforço intelectual, escondem um efeito perverso: limitam o cérebro. Porque tendência não é destino, convém praticar exercícios cerebrais. Palavras cruzadas, por exemplo, são um santo remédio.
vvv
O desafio da neuróbica é fazer tudo aquilo que contraria as rotinas, obrigando o cérebro a um trabalho adicional. Doutor Paulo Roberto Mercer, nosso fraterno amigo, enviou e-mail com algumas dicas úteis que adaptei e passo adiante. São exercícios que não fazem perder a barriga, mas ajudam a não esquecer da data de aniversário dos filhos: use o relógio de pulso no braço direito (e não pergunte ?quem colocou meu relógio aqui??); ande pela casa de trás para frente (não se preocupe com os vizinhos); vista-se de olhos fechados (cuidado para não sair nu); estimule o paladar, coma coisas diferentes (esta experiência é muito perigosa: use do bom senso); veja fotos de cabeça para baixo (papai tá maluco, anda vendo fotos de cabeça para baixo!); veja as horas num espelho (também serve para acertar os ponteiros da consciência); faça um novo caminho para ir ao trabalho (mas lembre-se de voltar pra casa); para os que insistem em dizer que o curitibano não é cordial, converse com o vizinho que nunca dá bom-dia. Ele provavelmente vai concluir que você já está com Alzheimer, mas não custa a simpatia.
E se você é brasileiro, o Ministério da Saúde adverte: o brasileiro não tem memória. Fuja do alemão, saia da rotina e não vote no deputado do mensalão.
***
Tenho por mim que o doutor Alois Alzheimer (1864-1915) descobriu a moléstia ao fazer a autópsia no cérebro do camarada que inventou o guarda-chuva. Se não me falha a memória, a história é a seguinte: depois de muitos e muitos anos de pesquisa, certo dia o artesão chegou à forma e ao mecanismo do guarda-chuva ideal. A mesma traquitana de hoje, preta e impermeável. Eufórico com o invento, o inventor foi na casa do vizinho, comemorar e mostrar a novidade que iria mudar a vida dos pedestres de todo o mundo. A festa no vizinho varou a madrugada e beberam todas.
No dia seguinte, quando o artesão acordou para registrar a patente da obra, cadê o guarda-chuva? Ele esqueceu o invento na casa do vizinho.
***
NOTA DO EDITOR:
A partir deste sábado, a coluna de Dante Mendonça na internet será atualizada diariamente. As crônicas publicadas nos jornais O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná, continuam sendo veiculadas nos dias normais (quarta-feira, sexta-feira, sábado e segunda-feira). Entre estes dias, a coluna vem com o título genérico de ?Olho por olho, Dante por Dante?.