Fregueses franceses

Em 1718, um pirata francês invadiu as águas de Paranaguá e foi escorraçado por obra e graça de Nossa Senhora do Rocio. Se contarmos com as orações do povo de Paranaguá, neste sábado a padroeira do Paraná há de fazer com que a armada de Zidani encalhe na defesa brasileira.

Que os de pouca fé tenham em conta: não somente alguns gramas a mais de Ronaldo Nazário podem fazer valer a vitória brasileira contra os franceses. No sábado, a fé dos parnanguaras pode decidir tanto quanto a presença de Robinho em campo.

O historiador de origem portuguesa Antonio Vieira dos Santos, autor da Memória Histórica da Cidade de Paranaguá, registrou que, em 1686, o povo brasileiro padeceu de uma epidemia que dizimava famílias inteiras, atingindo o litoral do Paraná. O povo de Paranaguá recorreu à proteção da Virgem Santíssima do Rocio, então venerada em uma casa de palha pertencente ao alferes Faustino Borges da Silva. De graça atendida, dali surgiu a primeira capela do Rocio, abençoada em 1813 por Frei Manoel de Tomás.

Em 1903, outra epidemia atacou Paranaguá. O pároco Sebastião Gastaud prometeu construir uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Rocio se fosse atendido em suas preces. Outra graça merecida, a partir de 1903 se iniciou a construção do atual Santuário de Nossa Senhora do Rocio.

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Vem de séculos. A Senhora do Rocio vem protegendo os brasileiros bem antes do inglês Charles Muller trazer o rude esporte bretão para estes alegres trópicos. Sempre poderosa, a virgem há de nos proteger agora contra os franceses, fregueses desde 1504, quando seus mercadores e corsários armavam expedições para levar da Terra de Santa Cruz o vermelho do pau-brasil, junto com o azul, verde e amarelo de nossas araras.

Perdemos na Copa de 1998, é triste reconhecer, mas foi em território inimigo. Abaixo do Equador, em solo tapuia, os gauleses eram muito gostosos e, em território paranaense, as águas da baía de Paranaguá também os deglutiram.

O episódio do navio pirata francês em Paranaguá consta dos escritos do cronista Antonio Vieira dos Santos: ?Em 1718 o temerário pirata francês Bolorôt teve a imprudência de fazer seu ingresso rapinoso, atrás do galeão espanhol que vinha do Chile, carregado de prata, invadindo essas águas do terreno onde a Protetora da Cidade dominava, causando seu aparecimento imprevisto, na ponta da Ilha da Cotinga, grande susto e terror aos paranaguenses indefesos. Eles prontamente recorreram à sua padroeira e, cheios de confiança e devoção, a conduziram em triunfo, qual valorosa Judite, ao lugar da ribanceira; e prontamente, em defesa de seus filhos, foi castigada tal ousadia, por meio de um repentino furacão furioso que fez levar o navio desses piratas contra um cachopo de rochedo que tem à flor d?água, na Ilha da Cotinga, onde foi submergido nos profundos abismos, com o chefe pirata e seus cúmplices. Vitória que os paranagueses alcançaram pela intercessão de Maria no dia 9 de março do mesmo ano de 1718, ficando desde então eternizado o nome daquele rochedo, como memória perpétua de tal acontecimento?.

O navio corsário foi localizado e explorado no final do século passado, sendo encontrados diversos artefatos incluindo canhões, louças, prataria, moedas de ouro e ossos humanos; o pirata Bolorôt não deu o ar de sua graça.

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Particularmente, tenho muito o que temer da França. Por morar bem em frente ao prédio da Aliança Francesa, de minha janela assisto o entra e sai da cultura francesa que, desde o pirata Bolorôt, vem comparecendo à história do Paraná. Para os curitibanos, os franceses têm especial sabor. Principalmente no urbanismo, onde canibalizamos o arquiteto francês Alfred Agache – criador em 1943 do Plano Agache, o primeiro traço do atual desenho urbano da capital.

Que Nossa Senhora do Rocio nos livre da Bastilha que seria uma vitória francesa neste sábado. Nós moradores da Rua Prudente de Moraes iremos dormir com a Marselhesa nos ouvidos.

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