A meteorologia está prevendo para este feriadão um tempo propício para uma boa rede e um velho chinelo. Porém, sempre tem o porém de um vento sul, chuva, frio e carteado no final do período. E quem vive nessa parte úmida do Atlântico Sul, está branco de saber.

Portanto, duas recomendações para o feriadão, enquanto ainda é tempo: guarda-chuva e um bom livro. Guarda-chuva pode ser aquele que o vizinho esqueceu no feriadão passado. Quanto a um bom livro, pode procurar nas boas casas do ramo: Além do Fim do Mundo – A aterradora circunavegação de Fernão de Magalhães, do jornalista americano Laurence Bergreen (Editora Objetiva, 460 páginas, ilustrações, mapas e fotografias).

É um livraço! Feito para deitar na rede e, entre uma página e outra, vislumbrar o oceano imaginando a frota espanhola de Fernão de Magalhães ancorada ao largo da Baía de Paranaguá, um dos maiores estuários no sudoeste do Atlântico, no último dia de 1519.

Fernão de Magalhães era um português baixinho, atarracado, e teimoso feito uma mula. Uma mula carregada de astúcia e coragem, que botou na cabeça a idéia de descobrir uma rota marítima para as Ilhas das Especiarias, na Indonésia, origem das mercadorias mais valorizadas da época: cravo-da-índia, pimenta e noz-moscada. Essas coisas que a gente guarda numa canto da cozinha, ao lado do fogão. Em 10 de agosto de 1519, os cinco navios da frota de Fernão de Magalhães partiram de Sevilha, transpondo o sinuoso Rio Guadalquivir, que deságua no Golfo de Cádiz. Na mente do capitão-mor, um só objetivo: em vez de contornar o continente pelo Leste, atravessar o Atlântico e chegar às lendárias ilhas cruzando o continente americano pelo Oeste. Uma das viagens mais importantes da humanidade, equivalente, e muito mais incerta, à primeira viagem do homem à Lua. Não por acaso, o jornalista Laurence Bergreen é também autor de Viagem a Marte – A busca da Nasa por vida fora da Terra.

A narrativa de Além do Fim do Mundo é hipnotizante. Faz do leitor um marinheiro de Magalhães, sentindo na pele o sal dos infernos marítimos. Ao longo da travessia, os marinheiros exploram, se amotinam, sofrem e tantos morrem. Laurence Bergreen descreve em detalhes a violência usada por Magalhães para conter os motins, assim como as práticas sexuais incomuns experimentadas pela tripulação, dos costumes bizarros do Pacífico Sul, as orgias no Brasil, enquanto ancorados nas águas do Rio de Janeiro.

Apesar de ser essa a sua primeira viagem ao Brasil, Magalhães conhecia as descrições da terra, escritas por Américo Vespúcio em 1502. Nas palavras do navegador que emprestou seu nome ao continente, o Brasil e suas maravilhas naturais eram o que havia de mais próximo ao paraíso: “Esta terra é um deleite, coberta por uma quantidade infinita de árvores e árvores muito grandes que nunca perdem suas folhagens, e durante o ano todo produzem os perfumes mais doces e uma variedade infinita de frutas, deliciosas ao paladar e saudáveis ao corpo”, relatou Vespúcio. “E os campos produzem ervas e flores e raízes boas e doces, que são tão maravilhosas (…) que me imaginei próximo ao paraíso terrestre.”

Quem também se sentiu ao lado de Adão foi a tripulação de Magalhães, a armada espanhola: Trinidad, a nau capitânia, San Antonio, Concepción, Santiago e Victoria, o único galeão que retornou. “Quando os navios de Magalhães ancoraram, uma multidão de mulheres ? todas nuas e ansiosas por contatos com os visitantes ? nadou para saudá-los. Privados da companhia de mulheres há meses, os marinheiros acharam ter descoberto um paraíso terreno. Qualquer medo que pudessem ter sentido de índios canibais se dissolveu na chama do prazer carnal.”

Até domingo; e chega, para não estragar o prazer da leitura neste feriadão.

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