Com a cidade agora bem mais calada, o trânsito menos furioso, vem na memória uma dúvida de adolescente. O que era mais prazeroso: as férias de verão, ou as férias de inverno? Em dezembro, conforme as notas do boletim, eram três longos meses de orgia com o mar. Em julho, eram trinta regulamentares dias na casa da nona. Férias inesquecíveis que acabavam logo e se esgotavam com pressa, contadas nos dedos.
Primeira semana de julho, lá ia o piá a caminho do mato. Chegasse de ônibus ou de trem, era o nono que vinha buscar na estação. Na mala de papelão amarrada com barbante, as encomendas da família, um livro de Monteiro Lobato para não ser lido, blusa de lã grossa, camisas felpudas, bola vermelha de couro e um potente estilingue, especialmente feito com borracha do pneu do Alfa Romeo. E coitados dos passarinhos que cruzassem o caminho da charrete. Ao longe, a fumaça da chaminé era bússola.
Nesses outros e também bons tempos, férias de julho lembram do passaporte que sumiu, Miami, Flórida, o Pateta da Disney, o aeroporto. Para aqueles veteranos que chegaram a conhecer os derradeiros aviões da Panair, férias de julho lembram jabuticaba, pinhão, goiaba, amora, morango, maçã e o perfume das primas. Como eram doces as primas. E que bela visão elas nos proporcionavam, subindo a escada que nos levava aos mistérios do sótão da nona.
As primas, tadinhas das primas, morriam de medo da cama que estalava – craaac! -seria o leito de morte do bisavô, ou a cama de um tio distante que foi parar no hospício?
Na parede da sala tinha um calendário de Santo Antônio, emoldurado pelas cortinas de renda branca. Na pequena gaveta da velha cômoda, um canivete de picar fumo em forma de foice, junto a um velho baralho faltando o dois de paus. Em outras, objetos esquecidos pelo tempo, os engomados lençóis presenteados no casamento, até o vestido de noiva da nona -objeto de desejo das primas. Junto à janela que se abria para um pé de pitanga, uma ratoeira armada quase no pé da cristaleira de imbuia, onde repousavam as porcelanas e cristais da família.
Politone, esse é o nome daqueles quadros arredondados, pintados sobre fotografias: retratos de noivado e casamento, velhas fotografias de familiares, retocados e ampliados.
Na porta da cozinha, as galinhas do quintal e um pé de limão; depois o paiol de milho e os pombinhos ciscando em torno do balaio furado. Um pouco além do poço de água fresca que não tinha fundo, o sabugo de milho enrolado no pano trancava a saída de água do tanque, bem embaixo da laranjeira onde os cachorros ficavam se coçando o dia inteiro.
Hora do almoço, a longa e larga mesa feita com peça inteira de madeira grossa de três dedos, as cadeiras de palha. O fogão a lenha – também lareira – coberto de panelas de ferro fumegantes, o chiado da chaleira. No porão, as pipas e garrafões guardavam a vinho feito pela família. No paiol, a carne cozida de porco guardada dentro de latas de banha para não estragar, que na casa da nona não tinha geladeira. A água gelada vinha da moringa na sombra e a lingüiça era feita e temperada com a ajuda dos amigos e vizinhos no dia da matança do porco. As férias de julho também tinham o gosto de torresmo.
Lavar as mãos antes das refeições era tão sagrado quanto quadro da Santa Ceia no centro da cozinha; e rezar pelos alimentos recebidos, principalmente. ?Quando si mangia, si tazzi?, dizia o nono italiano, e ai de quem falasse antes do dono da casa liberar a gurizada para as folias das férias: bicicleta pra que te quero; o futebol na pastagem, onde as bostas das vacas serviam de trave; gaiola e estilingue nos dedos, a cruel chacina de passarinhos; o acampamento na montanha mais próxima; a geada no fundo do vale; o assalto ao pomar das cercanias; e se um bocadinho de sol do inverno assim o permitisse, o banho de rio era privilégio dos mais exibidos. As primas só botavam o dedinho na água.