Bons tempos aqueles, quando a Granja do Torto se enfeitava para os rotineiros folguedos de fim de semana. Gilberto Gil aparecia para dar uma canja – É canja! É canja de galinha! Arruma outro time pra jogar com a nossa linha! – e Ciro Gomes interpretava pérolas do conterrâneo Fagner.
Os convescotes começavam no sábado, com costela e picanha vindas do oeste catarinense, pelas mãos do ministro da pesca – de avião! -, e esticavam nas animadas peladas domingueiras, com almoço de alto coturno. Era um entra e sai de carros pretos. No final do domingão, um enxame de carros oficiais saía em debandada. A nação era feliz e não sabia. O sal grosso era o pulso do governo: com costela, picanha na brasa, era o Brasil em marcha. Nos últimos meses, a churrasqueira presidencial é das aranhas. A conjuntura está mais preta que um saco de carvão e, neste mês de junho, nem festa junina teve: enquadraram a quadrilha. A corte da Granja do Torto come, dorme e assiste CPI. E entre uma carne de pescoço e outra, os graúdos fazem plantão nas bancas de jornais de Brasília para receber as péssimas notícias dos jornais e revistas. O que será, o que será, o que será da próxima capa dos jornais e revistas?
Domingo passado não foi diferente, o poder fez fila nas bancas de revistas. A Época entregou de bandeja aos comensais do poder novas denúncias envolvendo empresas que prestam serviço aos Correios. Bandalheira da hora é uma suposta maracutaia da empresa de transporte aéreo, a Skymaster. O que confirma a velha tese que existe algo mais rumoroso no céu de Brasília, além dos aviões de carreira.
A revista IstoÉ também chegou cedinho na Granja do Torto para azedar o café da manhã de sábado. Na reportagem, apareceu o dinheiro do suposto mensalão: agências do publicitário Marcos Valério sacaram R$ 20,6 milhões em dinheiro em menos de dois anos. Encomenda de Delúbio Soares, tesoureiro do PT, dizem. Marcos Valério e Delúbio Soares não faziam apenas o papel de fornecedor e cliente. Eram muito amigos, mais que amigos, muy amigos… diz a revista Veja. Para estragar de vez o fim de semana na Granja do Torto.
Marcos Valério Fernandes é o nome dele. Na revista Veja, o publicitário de araque reconhece que já fez vultosas movimentações financeiras no Banco Rural. Mas ele se defende, dizendo que é rapaz do bem: "Tenho fazendas, compro animais. Lido com gado. Há fazendeiros que simplesmente não aceitam cheques." Ao explicar os motivos pelos quais foi treze vezes à sede do PT em Brasília, Valério disse à revista: "Fui tomar cafezinho com meu amigo Delúbio. Discutíamos futilidades e um pouco de política. Nunca neguei que sou muito, mas muito amigo mesmo do Delúbio. Eu sou do interior, bicho do mato. O Delúbio é goiano, bicho do mato também".
De fato, dois bichos do mato. Mas bicho muito esperto, da espécie felina.
A nação era feliz e não sabia. Para não haver "solução de continuidade" (ai!) na Granja do Torto, só nos resta doravante viver no mundo do faz de conta. Vamos fazer de conta que ninguém sabia de nada e eles que tratem de convidar o PMDB para um domingão na Granja do Torto, com direito a costela, picanha e escalar o time titular do Lula, inclusive o banco. Desde que não seja o Banco Rural.
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Delúbio Soares e Marcos Valério, dois bichos do mato, estavam pescando no Lago Paranoá, em Brasília. De repente, ouvem barulho vindo de cima: flapt… flapt… flapt… Olham para cima e vêem enorme elefante batendo as orelhas e voando! Bem acima de suas cabeças!
Um olha para o outro e voltam a se concentrar na pescaria. Mais alguns minutos e o mesmo barulho: era outro elefante, também voando baixo, a poucos metros de suas cabeças. Mais alguns minutos e outro elefante… e outro… e mais outro… Após o décimo elefante, um vira para o outro e diz:
– É, cumpadre… o ninho deles deve di sê aqui pertim… ali na Granja do Torto.