Sinto muito, meu caro Cristian Toledo, mas serei estraga- prazer da primeira leitura do livro Fama e anonimato, do jornalista e escritor americano Gay Talese, que você encomendou à sua amada primeira-dama.
Gay Talese está na moda. Não só por ter sido um dos maiores repórteres da história do The New York Times, mas, principalmente agora, pelo relançamento deste livro, pela Companhia das Letras, que por muitos anos foi uma raridade disputada nas escolas de jornalismo e redações brasileiras. Em sua primeira edição em língua portuguesa, com o título Aos olhos da multidão, sem prefácio, posfácio e dois textos que agora vieram torná-la ainda mais rica, a obra foi lançada em 1973, não demorou a se esgotar e nunca mais foi reeditada.
Não serei tão perverso com Cristian, fã radical de Frank Sinatra. Comecei a leitura de trás pra frente, na página 523, com um texto suplementar de Talese – “Como não entrevistar Frank Sinatra” – que é uma lição de jornalismo. Nele, o legendário repórter do NYT conta como foi a feitura da célebre reportagem sobre Frank Sinatra – que consta do livro – escrita originalmente para a revista Esquire.
No inverno de 1965, Gay Talese foi enviado a Los Angeles, pela Esquire, para fazer um entrevista com Sinatra, que tinha sido acertada previamente. “Depois de me hospedar no Beverly Wilshire, de alugar um carro do hotel e de passar a manhã de minha chegada numa sala espaçosa às voltas com um calhamaço de matérias sobre Frank Sinatra, acompanhado de um bife igualmente volumoso e de uma bela garrafa de Borgonha californiano, recebi um telefonema do escritório de Frank Sinatra informando que a entrevista marcada para aquela tarde não aconteceria.”
O senhor Sinatra está resfriado! – justificou o agente, no “making of” da reportagem sobre “The Voice”, que recebeu dos editores da Esquire este título:
Frank Sinatra está resfriado.
Desde a década de 1960, Gay Talese é identificado pela popularização do gênero literário mais conhecido como “New Journalism”, quando os meios de comunicação impressos investiam forte na pesquisa, no talento de seus repórteres e nas grandes reportagens, agora cada vez mais raras: “Em parte devido à relutância dos editores de revista em financiar os custos crescentes desse tipo de trabalho, e também a tendência, por parte de muitos jovens colaboradores dessas revistas, a economizar tempo e energia valendo-se desse recurso literário eficiente, mas um tanto embrutecedor: o gravador”.
Ele próprio foi entrevistado por escritores munidos de gravadores e, “enquanto respondia às suas perguntas, surpreendia-os ouvindo sem muita atenção, balançando a cabeça alegremente, despreocupados porque sabiam que as rodinhas estavam girando”.
Profissional de rádio, onde o gravador é ferramenta de trabalho essencial, o jornalista Cristian Toledo sabe do que se trata. Talese mais ainda, acrescentando fermento a uma polêmica muito atual: “Longe de desestimular essa tendência, a maioria dos editores aprova tacitamente, porque uma entrevista gravada e transcrita com fidelidade protege os periódicos dos entrevistados que depois poderiam alegar que sua afirmações foram distorcidas – acusação que, nesta época de custas cada vez mais altas e de tanto gosto por disputas judiciais, gera muita ansiedade e às vezes um certo temor, mesmo entre os editores mais independentes e corajosos”.
Gay Talese é também autor de O reino e o poder, a história do poderoso jornal The New York Times, onde o repórter fez história. Nos anos 50, por exemplo, ele descobriu que os nova-iorquinos piscavam em média 28 vezes por minuto; que nos dias de chuva menos gente se matava na cidade, mas caía o movimento do comércio entre 15% e 20%; que um homem ganhava a vida recuperando objetos perdidos no fundo do mar de Nova York; e que as faxineiras do Empire State Building encontravam, nas 3 mil salas do edifício, mais ou menos 5 mil dólares por ano.
Até domingo, Cristian Toledo, com as duas últimas frases de Gay Talese, que talvez expliquem a que ponto chegamos: “A estrada se tornou muito cara. O escritor está em casa”.