Estalactite é pra baixo, Estalagmite é pra cima. Foram feitos um para o outro. Tite e Mite estão se conhecendo há anos. Namorados, quase casados. Moram no mesmo prédio, mas dividem o apartamento em dias de não e em dias de sim. Em dias de não, Estalagmite mora com a mãe no apartamento de baixo. Em dias de sim, ela fica com Estalactite, no apartamento de cobertura. Estalactite, o Tite, mora em cima. Estalagmite, a Mite, mora embaixo
Tite vive de rendas. Renda dos pinheirais da família esparramados pelo Brasil meridional, agora transformados em fundos de renda fixa e imóveis. A maioria apartamentos em Curitiba e Camboriú. Mesmo assim, Estalactite é pra baixo.
Estalagmite é pra cima. Formada em Comunicação Social, com habilitação em Relações Públicas, oficialmente, é produtora, promoter e banqueteira. Mite é pra cima, gosta do que faz, sua vida é profissionalmente uma festa. Com quinze aninhos já conhecia Paulo Leminski. Num sábado em pleno verão, voltou de Caiobá e desembarcou direto no antigo Bar Stuart, de biquíni bem pequenininho. Tomou um chope com os rapazes e ganhou uma frase do Polaco, escrita num guardanapo. Em homenagem ao esplêndido biquíni bem pequenininho, lá estava escrito: O rio é o mar, Curitiba é o bar.
Estalactite é pra baixo, Estalagmite é pra cima. Foram feitos um para o outro. Pra explicar a relação, Mite tem uma frase que recolheu na internet: Que mulher nunca comeu uma caixa de Sonho de Valsa por ansiedade, uma folha de alface por vaidade e um cafajeste por saudade?
Tite também explica a relação, mas com uma frase de porta de banheiro: Pior do que não ter o que vestir é não ter alguém pra te despir.
Estalactite e Estalagmite, um pra baixo outro pra cima, feitos um para o outro. Sexta-feira é dia de sim. Mite subiu ao apartamento de Tite para combinar o fim de semana.
– Que bafor, Tite!
– Bafor?
– É, bafor! O clima do teu apê: uma combinação de calor, com o bafo dos que viraram a noite jogando pôquer.
– Huummm…
– Hoje é sexta-feira, sabia? Onde vamos jantar?
– Huuummm…
– Que tal comida italiana?
– Huuummm… não!
– Uma churrascaria?
– Huuummm… não!
– Frutos do mar, pode ser?
– Huuummm… não!
– Comida chinesa?
– Huummm… prefiro comida japonesa!
– Gente, como é complicado! Preciso fazer toda essa ginástica pra chegar justamente onde queria: comida japonesa.
– Será? E se a gente ficasse em casa?
– Belê! Vamos curtir a Hora do Brasil e depois nos esparramamos no sofá pra assistir toda a programação do Animal Planet. Belê! A comida japonesa a gente pede pelo teletáxi…
– Criatura, não deu pra bola? Olha só a tua agenda: Segunda, foi na mostra Imagética, passou no bar Era só o que faltava e voltou prejudicada. Terça, bateu ponto no Beto Batata e voltou prejudicada. Quarta, foi conferir a exposição do Zimmermann, esticou no Original Café e voltou prejudicada. Ontem, teve Ronda da Noite no Café Curaçao e voltou…
– … prejudicadééézima!!! Prejudicadééézima, com a tua agenda: segunda, pôquer; terça, pôquer; quarta, pôquer; quinta, pôquer! Queria o quê? Ele, jogando pôquer. Ela, servindo cerveja com rolmops e fumando na varanda.
– Mite, a crise da nossa relação pode ser hepática. Incompatibilidade de fígados!
– Epa, Tite! Cuida mais do meu coração e menos do meu fígado!
– Huuummm…
– Gostou da frase do Otávio Duarte? Fui!
Até domingo e, até outro dia, com mais um capítulo da estonteante vida de Estalactite e Estalagmite, um pra baixo outro pra cima, feitos um para o outro.