Curitiba está em estado de graça, com o Atlético quase bicampeão e o Paraná Clube de passagem marcada para justas e merecidas férias, de bem com a vida. O Coritiba, feliz com o limbo que lhe foi destinado, mas nem tanto. A torcida coxa-branca, apenas cumprindo expediente pré-natalino, confirma a frase de Albert Camus, filósofo e ex-goleiro do Racing, da Argélia: "Torcedor é assim: não basta ser feliz. É preciso que os outros não sejam". Torcer contra é parágrafo primeiro no estatuto da torcida, porque "Torcedor é sofredor. Seu gozo depende do sofrimento próprio e da desgraça alheia" – dizia o escritor e dramaturgo Jules Renard.
Se a capital está em estado de graça, o resto do Estado também. Em Cascavel, a tevê mostrou, torcedores reunidos no boteco aplaudiram em pé o segundo ato do espetáculo atleticano. Em Pato Branco, buzinaço até no milharal. Em Campo Mourão, o foguetório fez o carneiro cair no buraco, de susto. Em Antonina, o siri fugiu da lata. Em Paranaguá, alegria é apelido. Porto União e União da Vitória, a camisa atleticana confundia paranaenses e catarinas, sob a mesma bandeira rubro-negra. Rio Negro tornou-se rubro-negro. Em Foz de Iguaçu, onde se chora apenas em caso de alegria, cataratas de lágrimas. Em Palmas, palmas para o Furacão. Se na Arena teve baile, em Jacarezinho também, que de baile o Norte Pioneiro é craque. Maringá, Maringá, o hino atleticano virou canção. Em São Tomé, aquele segundo tempo foi de ver pra crer. Teve samba com rock e Sengés. De Diamante do Norte a Piên, de Missal a Guaraqueçaba, palpitando no peito o coração de Washington.
Em Londrina? Em Londrina, nem tanto. Naquele enclave corintiano, Domingos Pelegrini não nos deixa mentir: a torcida atleticana cabe em três kombis. Exagerando, na carroceria de uma jamanta. O que é perfeitamente justificável, toda unanimidade é burra, e até na Arena da Baixada houve quem se sentisse desconfortável.
O estádio lotado, o juiz apita e o jogo começa.
– 23 mil pessoas, 22 jogadores, um juiz e dois bandeirinhas…
Um camarada gordo olha ao lado… e era um baixinho falando sozinho:
– 23 mil pessoas, 22 jogadores, um juiz e dois bandeirinhas…
Falta na boca da área. A torcida nervosa, Jádson arruma a bola e…
– 23 mil pessoas, 22 jogadores, um juiz e dois bandeirinhas… Repete a ladainha o baixinho.
O gordo fica invocado, com vontade de meter a mão na cara do sujeito falando sozinho. A bola foi desviada pela barreira, escanteio.
– 23 mil pessoas, 22 jogadores, um juiz e dois bandeirinhas…
– Tá doidão, anão? – rosnou o gordo, mas o baixinho fez que não era com ele.
Jádson foi bater o escanteio e escanteio é meio gol.
– 23 mil pessoas, 22 jogadores, um juiz e dois bandeirinhas…
O gordo não agüentou:
– Pára com essa ladainha, baixinho maluco! Você já está enchendo o saco com essa história de… 23 mil pessoas, 22 jogadores, um juiz e dois bandeirinhas…
Aí, disse o baixinho.
– Pro senhor ver… com tanta gente aqui na Baixada, vem um passarinho e faz cocô justo na minha cabeça!
"Torcedor é sofredor. Seu gozo depende do sofrimento próprio e da desgraça alheia"; esse é o desconforto também da torcida coxa-branca:
– 528 partidas, 44 rodadas, 47.520 minutos de jogo, 792 horas de bola rolando, 24 times, 264 jogadores, 88 juízes, 48 bandeirinhas… e justo o Atlético pode ser bicampeão!
Até sexta-feira, torcida coxa-branca; e nada como um campeonato atrás do outro, porque as estrelas nascem pra todos.