Ontem foi convocada nova assembléia geral extraordinária na sede da CCPP (Comissão Celeste Pró-Paraná). Assinaram presença toda a diretoria e demais membros. O presidente Carvalhinho abriu a sessão e passou a palavra para o orador da CCPP, Bento Munhoz da Rocha, que relatou a pauta do dia:

– Senhor presidente, senhores do conselho. Estamos aqui reunidos para analisar a momentosa questão do mar territorial paranaense, cujas divisas marítimas o Paraná disputa com Santa Catarina. Uma polêmica, senhores, que começou em 1988, quando o IBGE definiu os limites das águas entre os dois estados. Em função dos royalties do petróleo, a pendenga jurídica e geográfica pode afetar a economia paranaense “per omnia seculum seculorum”. Para situar a controvérsia, senhoras e senhores, os campos petrolíferos estão a cerca de 170 quilômetros da costa. Descobertos e explorados pela Petrobras, passaram a pertencer ao Paraná, que recebe os dividendos, além de São Paulo. Alegam os catarinenses que o mar territorial do Paraná seria de apenas 20 milhas, não atingindo os campos de petróleo. Portanto, os catarinenses querem ser reembolsados, com reintegração de posse.

– Um absurdo, senhor presidente, senhor orador!, manifestou-se Anfrísio Siqueira, ex-presidente da Boca Maldita, completando: – Já não basta o latifúndio marítimo da vizinhança? Proponho uma reforma agrária no mar. Fundaremos o MSM, o Movimento dos Sem Mar!

– Pela ordem!, interveio o orador Bento Munhoz da Rocha. Passo a palavra a Octávio Cesário, o Jaburu.

– Senhores! Na qualidade de ex-vice-governador do Paraná e catarinense de origem, proponho que esta Comissão Celeste Pró-Paraná realize um fórum para estudar o tema, reunindo lideranças catarinenses e paranaenses.

A proposta do Jaburu não foi aceita por unanimidade. Irado, o ex-governador Ney Braga ameaçou se acantonar no Forte da Ilha do Mel, pegar em armas, convocando os velhos heróis do Cerco da Lapa para invadir e tomar posse das praias catarinenses. Apesar dos protestos dos lapeanos, foi formada uma comissão para discutir a questão em território neutro: uma imensa nuvem (cumulus nimbus) de chuva que se estendia entre a Ilha do Mel e a Ilha da Paz, em São Francisco do Sul. Representando o Paraná, foram indicados Bento Munhoz da Rocha, Jaburu, José Richa e o Barão do Cerro Azul. Beligerante, Ney Braga não aceitou participar. Pelos catarinenses, compareceram Nereu Ramos, Irineu Bornhausen, Pedro Ivo Campos e Anita Garibaldi.

Com o brilho e inteligência que lhe é peculiar, Bento Munhoz da Rocha abriu o fórum, solicitando que fosse esquecido o velho contencioso do Contestado. Anita Garibaldi concordou, não sem antes alertar aos presentes que não aceitaria mais provocações de Ney Braga, enfatizando:

– Se esse Ney Braga quer guerra, é comigo mesmo. Decido com ele no braço!

Então, no velho estilo tucano, interferiu o híbrido Octávio Cesário:

– Senhoras, senhores, que a paz esteja conosco. Como catarinense e paranaense, proponho uma solução conciliatória, onde todos teríamos só a ganhar. Nada mais nada menos, proponho a unificação pura e simples dos dois estados. Unidos, eles poderiam se chamar então Estado de Paranina. Seríamos os paraninenses. Somando nossos royalties, seríamos um dos maiores produtores de petróleo do mundo, já que possuímos informações privilegiadas, vindas do Todo-Poderoso, criador do Céu e da Terra, de que imensas áreas petrolíferas ainda serão descobertas no litoral sul. De fonte segura, dois gigantes poços de petróleo vão jorrar ainda neste milênio: um na praia central de Matinhos, outro na Avenida Atlântica, em Balneário Camboriú.

– E em Laguna, nada?, argüiu Anita Garibaldi.

– Sinto dizer, ilustre heroína, mas o Todo-Podoreso pensa seriamente em tirar do mapa Laguna, Campinas e Pelotas.

– Se tal acontecer, porca miséria!, eu e o meu Giuseppe vamos às armas!

– Calma, ilustre heroína! Deus escreve certo por linhas tortas, mas de vez em quando tem suas recaídas.

– E quanto à capital do Estado de Paranina, onde e como vamos estabelecer? No sorteio, cara-coroa ou no palitinho?

– Cara-coroa! Cara, Curitiba… coroa, Floripa!, lembrou Irineu Bornhausen.

– No carteado! – sugeriu Zé Richa. Quem ganhar, leva!

– E por que não uma opção neutra, intermediária?, interveio Nereu Ramos. Meu indicativo é Curitiba, a capital econômica. Floripa, a capital de turismo e lazer. Assim sendo, a capital política e administrativa seria na serrana Lages. A exemplo de Brasília, vamos interiorizar o nosso desenvolvimento.

– Data venia, nobre confrade! Nesse aspecto, lembro que Guarapuava, geograficamente, é a cidade mais central do futuro Estado de Paranina!, lembrou o Barão do Cerro Azul. – Com todo respeito aos lageanos, também de origens tropeiras.

Neste momento, ouviu-se um tropel de cavalos e adentra ao fórum o caudilho Getúlio Vargas, cavalgando ao lado do capanga Gregório.

– Mas bah, tchê!!! Entonces os macanudos se abancam e não convidam os gaudérios pro banquete? No mar da gauchada não tem petróleo, mas nos pampas tem bosta de cavalo pra fazer gás a mais de metro. Se é pra juntar os trapos, nós entramos com o churrasco, Grêmio e Internacional. E lhes asseguro que igual as prendas minhas não tem igual. Taí a chineca Gisele Bündchen fazendo o mundo babar, tchê!

– Não há de que, doutor Getúlio. Sendo do seu gosto, se abanque e passe a cuia!, anuiu o ex-governador catarinense Pedro Ivo Campos.

E continuou Getúlio Vargas, passando a cuia, enquanto o capanga Gregório amarrava os cavalos numa nuvenzinha de garoa:

– Se é pra juntar os trapos e entrar na história, dois pontos: quanto a localização da capital, a gauchada não faz questão. Floripa apenas me apetece, onde já mandamos e desmandamos. Mas, se me cabe um naco dessa fusão, disso não abro mão: o governador será gaúcho! E não se fala mais nisso, tchê!

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