A tragédia de uma família que fazia serenatas ao Senhor e que acabou cantando ao diabo. Os irmãos Mauro e Jessé tinham discos gravados com música gospel. Isael, o caçula da família, ajudava o pai de todos, Zaquel, no plantio da palmeira-real. Gente humilde e de fé, a melodia do demônio os arrastou ao inferno.
Na última sexta-feira, os turistas que estavam na praia de Itapema (SC) assistiram a outro confronto entre Deus e o diabo. Naquela manhã, Maria Júlia Ribeiro, 31 anos, se despediu de suas duas filhas antes de ir ao banco com o marido Jonas. No caixa automático, enquanto movimentava a conta da mercearia, um tiro nas costas interrompeu os passos apressados da comerciante, que tentava escapar do tiroteio entre assaltantes e guardas de um carro-forte. Seu último olhar foi para o marido.
Não muito distante de Maria Júlia, quatro corpos estendidos no chão: Zaquel Gonçalves, 49 anos, e Jessé, 22, estavam mortos. Isael, de 20 anos, em estado grave. Mauro Gonçalves Neto, 24 anos, baleado nas pernas, viu o pai e o irmão agonizarem até a morte.
Mauro e Jessé eram parceiros de música gospel. Garotos de boa aparência e fala mansa, eram vizinhos admirados na redondeza. Ganhavam a vida na estrada, cantando os hinos do Senhor.
Na edição de ontem, o Jornal de Santa Catarina (RBS) ouviu Mauro Gonçalves Neto. A entrevista cabe num roteiro de cinema.
Pergunta – Por que vocês fizeram o assalto?
Mauro – (silêncio) … não sei o que passou na nossa cabeça para fazer uma coisa dessas.
P – Vocês levaram quanto tempo para planejá-lo?
Mauro – Foi de uma hora pra outra. Meu pai teve a idéia. Eu soube do assalto quando a gente estava indo de Blumenau para Itapema.
P – Como foi aquela sexta-feira?
Mauro – Eu dormi até tarde. Depois, o pai falou pra gente sair e no caminho ele falou que era (silêncio)… pra fazer um negócio no banco.
P – Vocês não pensaram em desobedecê-lo?
Mauro – Tudo que meu pai pedia, a gente fazia.
P – Quem roubou o carro que vocês usaram?
Mauro – A Parati? Não sei de onde veio. Foi meu pai que…. Na sexta-feira, a gente saiu de casa com ela.
P – E as armas?
Mauro – Tinha três armas. A gente distribuiu dentro do carro, um pouco antes de chegar ao banco.
P – Vocês esperaram o carro-forte onde?
Mauro – Perto do banco. Entramos na agência juntos. Ficamos parados na porta. Os vigilantes entraram. A gente queria dar voz de prisão e pegar o malote.
P – Qual era o teu papel no roubo?
Mauro – Era vigiar, proteger.
P – E o tiroteio?
Mauro – Logo que os tiros começaram, caí. Se estivesse em pé, tinha morrido.
P – Quem estava do teu lado?
Mauro – Meu pai e meu irmão caíram do meu lado. Eu vi que iam morrer.
P – Deu tempo de falar alguma coisa?
Mauro – Não. Só vi eles agonizando até a morte.
P – Uma mulher morreu. Você tem remorso?
Mauro – Ela estava no caixa eletrônico. Quando os tiros começaram, passou correndo e caiu. Estou com o coração limpo.
P – O que passa pela tua cabeça agora?
Mauro – Eu sei o Deus que sirvo e Ele me livrou da morte. Nada vai me abalar. Quando eu sair daqui, vou voltar a cantar.
P – Seus vizinhos ficaram impressionados quando souberam da prisão de vocês.
Mauro – O que posso dizer é que foi uma coisa sem pé nem cabeça. Quero dizer aos evangélicos que orem por mim e minha família.
P – O que vocês faziam antes do assalto?
Mauro – Sempre vivemos da lavoura. Em Garuva, a gente trabalhava com corte de madeira, plantio de palmeira e roça de milho. Em Blumenau, meu pai plantava palmeira-real.
P – Como era o Jessé?
Mauro – A gente vivia na estrada cantando. A mulher dele está grávida de quatro meses.
P – Ele tinha emprego?
Mauro – Não.
P – Vocês gravaram dois discos?
Mauro – Em 2004 e 2005. Todos de músicas gospel. Eu e meu irmão bancamos. Cada disco custou R$ 7 mil. A gente cantava nos eventos de gideões e cobrava R$ 300.