A uma semana do Carnaval, sexta-feira passada transcorreu como um dia qualquer em Curitiba. Enquanto no resto do Brasil se fazia o ?enterro da tristeza?, aqui era apenas véspera de sábado.
No dia anterior, o governo do Estado anunciou um respeitável aumento nos salários dos barnabés estaduais e o que se viu e ouviu foi uma leve conjunção de veículos rumo ao litoral, a lombeira de uma arroba nos ombros dos que restaram na capital. E olha que parte da população tinha bons motivos para cair na folia: congelados há dez anos, os proventos dos funcionários do quadro geral do Estado ganharam um reajuste entre 25,56% e 88,1%. Evoé, Momo!!! De lambuja, o Executivo enviou ao Legislativo a mensagem estipulando o salário mínimo regional em R$ 427 realitos.
Seria um bom motivo para botar o bloco na rua, mas nem assim.
Depois desse rombudo vazamento nos cofres públicos e privados, o único cortejo fúnebre que se viu na sexta-feira foi aquele do bloco das oposições, concentrado num beco sem saída para o ?enterro da alegria?, ensaiando a marchinha: ?As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar!?.
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Situada no primeiro planalto paranaense, latitude 25 25?48? Sul, longitude 49 16?15? Oeste, formada num altiplano a 934 metros, clima temperado mais para o gelado, pluviosidade acima da santa paciência, 100 quilômetros distante do mar, sem nenhum destaque panorâmico em que se note o dedo de Deus, Curitiba acabou criando sua própria paisagem por vias administrativas.
Para os padrões brasileiros, convenhamos, Curitiba não tem configuração para o Carnaval. E nem tem vocação para ?enterrar a tristeza? num dia útil.
Muitos já tentaram modificar essa sua própria natureza, também pelas tradicionais soluções administrativas. Entretanto, o maior feito carnavalesco da cidade foi trazer Vinícius de Moraes para inaugurar o Teatro do Paiol.
Não foi pouco, o poeta trouxe na bagagem Toquinho, Maria Medalha, Trio Mocotó e exigiu para a empreitada duas caixas de uísque, que a sede era tanta, e uma ?banheirinha cor-de-rosa? para namorar no hotel.
Numa semana de Natal, e com o teatro sendo feito a toque de caixa e bimbalhar de sinos, parecia impossível trazer o ?poetinha?, que estava passando férias em Itapoá, na Bahia. Mas tudo deu certo, conseguiram instalar a rara ?banheirinha cor-de-rosa? no hotel e o Teatro do Paiol foi inaugurado em 27 de dezembro de 1971.
Apesar do dissonante bimbalhar dos sinos, o Carnaval que Vinícius de Moraes aprontou, vou te contar! A cidade ficou tão animada que em fevereiro trouxeram um trio elétrico da Bahia. Sugestão do próprio Vinícius, depois da segunda caixa de uísque. Confirmando que o poeta bebia bem, a idéia não vingou: nossos polacos não iam atrás do trio elétrico, corriam na frente.
Mesmo assim, e apesar dos protestos dos baianos – não conseguiam entender por que os polacos não pegaram o espírito da coisa e não colocavam a carroça na frente dos bois – os curitibanos ficaram muito gratos e jamais tiraram da memória a passagem de Vinícius de Moraes pela ?banheirinha cor-de-rosa? do hotel na Praça Rui Barbosa.
O poeta morreu no Rio de Janeiro em 9 de julho de 1980. E, pois, Vinícius não há mais.
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O Carnaval em Curitiba, pois, também não há mais. Se nem mesmo com um aumento salarial, depois de dez anos no limbo, os barnabés estaduais ?enterraram a tristeza?, sinceramente, que se aposente o rei Momo por invalidez.
Porém, sempre é Carnaval. Ainda é tempo de dizer à tristeza que, por favor, vá embora. Nos próximos dias, dois bares de Curitiba estão organizando folias pré-carnavalescas: o Bar do Durva, na Vicente Machado – que sai com seu bloco pela primeira vez, e o Bar Ao Distinto Cavalheiro, com a sua já tradicional fuzarca de quinta-feira.
Venha você também! De resto, a marchinha mais cantada será aquela de sempre: ?Quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão!?.
Enterro da tristeza
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