Luiz Inácio Lula da Silva tem um grande mérito. É um determinado, um brasileiro que não desiste nunca. Mesmo sem enxergar um palmo à frente do nariz, encontra-se embrenhado na selva, em busca do fim da picada.
Os manuais de sobrevivência na selva nos aconselham a não ficar parado no aguardo de socorro. É preciso se mover. Olhar atento em volta, determinar a localização da melhor forma possível e recolher o que ainda nos resta. Todos os objetos são vitais, mas alguns são mais úteis: lanterna, espelho, caneta, livro sobre cobras venenosas, travesseiro, cantil com água, sal, faca de caça, ataduras de gaze, um isqueiro é de grande valia. É fundamental localizar uma fonte de água.
Caso tenhamos em mãos um rádio que esteja funcionando, 121.5 é a freqüência de socorro internacional. Depois de sinalizar o local, é preciso juntar todo o material combustível que puder. Para que uma equipe de salvamento possa nos localizar, é preciso deixar no local um bilhete dizendo o caminho que tomamos, e quando partimos. Mas não podemos deixar dúvidas acerca do rumo tomado. Enquanto isso, é aconselhável escrever um diário de viagem.
Luiz Inácio Lula da Silva está carente de um manual de sobrevivência na selva. Ele se move, caminha célere em busca do fim da picada.
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Enxergar o real fim da picada não é uma tarefa fácil. Como num deserto, o fim da picada é uma miragem.
Quando o assessor especial do ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz, foi filmado pedindo 10% da botija, parecia o fim da picada.
Mato adiante, o deputado Roberto Jefferson denunciou o "mensalão" e a opinião pública quedou-se pasma:
– É o fim da picada!
Não era. Naquela selva alguém estava mentindo. E foi também nas proximidades de um bosque francês – o Bois de Bologne – que Luiz Inácio Lula da Silva declarou-se convicto de que aquilo não era o fim da picada, e profetizou:
– A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira, você passa a vida inteira contando mentira para justificar a primeira que contou.
De lá para cá, um por um, os companheiros de viagem caíram sob o efeito do veneno das próprias mentiras, e o autor da frase retomou a marcha batida em busca do fim da picada.
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É o fim da picada. Em entrevista, o caseiro Francenildo diz que viu Palocci de dez a vinte vezes na mansão de tolerância. A revista Época publica matéria mostrando que R$ 25 mil foram contabilizados na conta do caseiro. Francenildo diz que ganhou o recurso contabilizado do pai. Começa a busca atrás de quem quebrou de forma ilegal o sigilo de Francenildo. Na Polícia Federal, cada um cada um, e Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal, se nega a fazer o papel de boi de piranha e entrega a corrente da ilegalidade: estava jantando em um restaurante de Brasília, quando soube por meio de Ricardo Schumann, seu assessor, que a conta-poupança do caseiro Francenildo registrara "movimentações atípicas". Mattoso deu ordem para que se tirasse um extrato da conta. De posse dele, bebeu o que restava do vinho e foi entregar o ilícito em mãos, na casa oficial do ministro da Fazenda, no Lago Sul. É o fim da picada? Não. O assessor de imprensa do ministro correu a entregar o extrato bancário para o próprio filho, que por acaso é repórter da revista Época.
Defenestrado, Palocci se despediu daquele mato sem cachorro dizendo que "deixa o governo com a consciência tranqüila e com a mesma humildade que chegou ao Ministério da Fazenda. Jamais patrocinou malfeitoria com recursos públicos e guarda profundo respeito às pessoas e às leis".
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A quebra do sigilo bancário ainda não é o fim da picada. Luiz Inácio Lula da Silva se move. Ele parece não ter a menor idéia do que seria o fim da picada. Sem rumo, não sabe onde está, não sabe o que se passa em sua volta e não enxerga um palmo à frente do nariz.
Luiz Inácio caminha célere em busca do fim da picada.