O comissário do Conselho Federal de Jornalismo expede um curto e-mail ao Diretor de Redação do jornal: “Senhor Diretor. Comunicamos que este CRJ, na pessoa do Comissário Regional, vai realizar a rotineira inspeção de reavaliação junto aos companheiros trabalhadores de imprensa desse jornal. Saudações corporativas, o Comissário Presidente”.
Na data aprazada para a rotineira inspeção de reavaliação, o diretor de Redação reúne seus editores:
– Às cinco em ponto da tarde o comissário regional do Conselho Federal de Jornalismo estará aqui na redação para a rotineira inspeção de reavaliação.
– Às cinco em ponto da tarde? Bem na hora do início do fechamento da edição. Esse pelego não podia escolher uma hora melhor?
– É o conselho que agenda as visitas e vamos tratar o comissário da forma mais gentil possível. Mas, antes disso, e para ninguém ter nenhuma surpresa desagradável, tem alguma notícia ruim para amanhã?
– Tem! – responde o secretário de Redação.
– Qual?
– Um cidadão caiu num buraco de uma rodovia federal e está em estado grave.
– Qual é o título da matéria?
– “No meio do caminho tinha um buraco federal.”
– Muda! O comissário vai interpretar como sendo denuncismo contra as rodovias federais.
– Alguma sugestão para uma outra manchete?
– “Cidadão participativo preenche lacuna.”
– Gênio! Nem o comissário faria melhor.
– Todos aos seus postos, que o comissário está apitando na curva.
De fato, o comissário entrou na Redação feito uma locomotiva e foi direto à Editoria de Política para orientar, disciplinar e fiscalizar.
– Pelos nossos relatórios de avaliação mensal, esta editoria recebeu o conceito 5.
– Senhor comissário, no mês passado recebemos conceito 7; a que devemos tão baixo conceito?
– Houve um relevante retrocesso com uma significativa curva oscilatória com versões conflitantes e distorcidas baseadas em fontes persecutórias.
– Perdão, senhor comissário, pode repetir?
– Sucintamente, foi publicada uma denúncia da oposição que não é fidedigna. Vocês são profissionais que sabem os limites da ação, sabem que a liberdade de imprensa é um valor definitivo na democracia, mas sabem também que numa sociedade nada é absoluto.
– Entendemos. Mais alguma coisa?
– Quem é o editor de Economia?
– É aquele rapaz alto, de paletó preto e sem barba.
– Sem barba?
– Sem barba!
– Huummm… Até a próxima, companheiros.
Assim que se aproximou da Editoria de Economia, todos se levantaram incontinenti e gentilmente saudaram o comissário:
– Boa tarde, companheiro comissário.
– Boa tarde, companheiros trabalhadores da imprensa livre. Como está a nossa auto-estima?
– Bem, muito bem, senhor comissário. Estamos editando uma matéria especial sobre o espetáculo do crescimento e a explosão das ofertas de emprego registrada nos últimos dias. Os investimentos externos mais que dobraram e a bolsa aponta para uma notável recuperação. O mais importante é que todos os índices econômicos apontam para cima e para um desenvolvimento sustentável jamais visto.
– Alguma coercível notícia sobre a lucratividade dos bancos?
– Nenhuma linha.
– Algo sobre a esclerosada CPI do Banestado?
– Nenhuma linha.
– Alguma falsa denúncia envolvendo autoridades econômicas?
– Nenhuma linha.
– Bravo! O cenário alavancado nesta editoria traduz os esforços orçamentários e fiscais empreendidos pela nossa equipe econômica com o objetivo de traçar as metas estabelecidas pelo companheiro presidente.
– Mais alguma observação, senhor comissário?
– Perfeito. Agradeço a colaboração dos companheiros nesta missão de orientar, disciplinar, fiscalizar. Só mais uma pergunta: onde é a Editoria de Cultura?
– Lá no canto, onde estão aqueles companheiros alegres e de roupas coloridas.
As garotas e rapazes da Editoria de Cultura receberam o comissário como deve ser: com muita festa. E bastou uma só pergunta e uma só resposta para o senhor comissário partir feliz, alegre e contente:
– O que temos para amanhã, companheiros da cultura popular?
– Uma entrevista de página inteira com Gilberto Gil.
Até domingo, companheiros leitores.